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Se eu fosse homem

8 de dezembro de 2025
in Gerais
Se eu fosse homem
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Se eu fosse homem e tivesse consciência eu estaria morto de vergonha.

Uma mulher foi incinerada viva junto aos 3 filhos, de um a sete anos, com quem ela tinha com o mesmo homem, que trancou a casa e colocou fogo com todos dentro. Ela tentava terminar o relacionamento e não conseguiu. Não deixa filhos porque todos morreram queimados com ela.

Uma mulher foi arrastada por um quilômetro após ser atropelada por um homem com quem mantinha um relacionamento fortuito, o famoso ficar. Ele a viu no bar acompanhada por um amigo e sentiu ciúmes. Lançou o veículo contra ela tentando de todas as maneiras matá-la segundo outro homem que estava de carona no carro-arma. Ela teve as duas pernas amputadas, precisa de inúmeros enxertos porque ficou sem a pele das costas e encontra-se em estado gravíssimo no hospital.

Duas mulheres foram mortas a tiros por um homem na escola em que trabalhavam. Ele era CAC e usou armas legalizadas para fazê-lo. Radicalizado, não aceitava ser comandado por mulher. Como “bom” covarde, matou-se após o ato para evitar as consequências da brutalidade que cometeu.

Sabe o que é pior? Ele será chamado de herói na “machosfera”(1) em que incels(2) e red pills (3) se comunicam usando a internet para, primariamente, divulgar, falar sobre e incentivar o ódio às mulheres em um verdadeiro movimento de radicalização de meninos e homens.

E esses são apenas três casos mais conhecidos em virtude da crueldade empregada. Porque os números gerais são ainda mais assustadores: nos últimos DOZE MESES 3,7 milhões de brasileiras relataram terem sido vítimas de alguma forma de violência doméstica ou familiar.

No nosso país, quatro mulheres morrem TODOS OS DIAS em virtude de serem mulheres no crime caracterizado há dez anos como feminicídio, o que aumentou a pena dos assassinos. Isso foi importante? Sim. Mas mostrou que aumento de pena por si só não soluciona essa chaga horrenda da nossa sociedade. É preciso além de punir, prevenir por meio da educação e amparar vítimas para que saiam da situação de violência.

Porque se uma mulher é assassinada por ser mulher toda a estrutura social e governamental falhou gravemente para evitar que isso acontecesse. Sua família não a protegeu, seus líderes religiosos não a protegeram, a polícia não a protegeu, o judiciário não a protegeu – ninguém foi capaz de evitar um crime evitável. Essa violência não vê limite de idade, raça, credo ou classe social.

Falando em líderes religiosos, é impossível não mencionar que 40% das mulheres evangélicas sofrem violência. E por que isso acontece? Não é difícil perceber que uma cultura religiosa que prega sua inferioridade frente ao masculino com sua obrigatória submissão ao homem; que ensine que a mulher que “edifica o lar” ora e não chama a polícia; ocasione essa moléstia. Obviamente, há lideranças e movimentos religiosos que não mais se apegam a esse discurso retrógrado e que acaba em violência e morte porque torna a mulher um objeto e o homem seu proprietário.

Mas não se pode negar o potencial altamente explosivo da combinação desse tipo de fanatismo religioso com o crescimento de movimentos masculinistas que ensinam homens, jovens e adultos, a desprezarem mulheres reafirmando que posições de poder não são para nós – sequer no mínimo – e que ao homem cabe “dominar”. Junto com eles mulheres que pregam “uma volta ao passado” por meio de comportamentos tradicionais como o abandono das carreiras e a vida dedicada ao marido e aos filhos. São as chamadas “trad wives”. Já alertava Beauvoir: o opressor não seria tão poderoso se não tivesse aliados entre os oprimidos.

É vergonhoso observar o tipo de homens que tudo isso tem produzido: uma leva de sujeitos fracos, desprezíveis que apelam para todos os tipos de violência ao ouvirem um simples “não” – em vez de terem a capacidade mental, moral e de caráter, demonstradas por outros homens, de seguirem com suas vidas.

E a tudo isso, instituições políticas, governamentais e religiosas, majoritariamente lideradas por homens, seguem, quase sempre, silentes.

Por isso, se eu fosse homem e tivesse consciência estaria morto de vergonha.

Sendo mulher, sigo morta de medo.

Nota:

A machosfera é um termo que se refere a uma rede de comunidades online, fóruns e grupos nas redes sociais, predominantemente masculinos, que promovem e divulgam ideias rígidas, agressivas e, muitas vezes, misóginas e machistas sobre masculinidade e relacionamentos.

Incels: Incelé um termo originado da expressão em inglês “involuntary celibate” (celibatário involuntário, em português). O termo descreve, principalmente, homens que, embora desejem, sentem-se incapazes de ter envolvimentos românticos ou sexuais, e que culpam as mulheres e a sociedade por suas frustrações.

Red pill: O termo “red pill” (pílula vermelha) tem origem no filme Matrixe se popularizou na internet, onde se transformou em uma ideologia misógina e machista.

Profa. Érica: @ProfaEricaCL

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