Fim de semana passado, iríamos assistir a uma luta que me pareceu uma excelente ideia: dois grandes campeões de MMA, nenhum deles especialista em boxe, iriam se reencontrar, mas dessa vez no ringue dentro das regras do esporte que consagrou Éder Jofre.
Eu amo lutas esportivas que tenham um nível maior de agressividade – sempre fui grande fã do Pride e senti muito quando ele foi cancelado em virtude de suspeitas de envolvimento com a Yakuza. É que, por incrível que pareça para quem conhece minha personalidade comedida e, normalmente, pacífica de pessoa afeita às leis e à ordem, eu gosto de sangue e violência no octógono. Pode parecer contraditório, mas na verdade, em minha forma de ver as coisas, faz total sentido, já que se trata de uma experiência catártica em que posso lançar raivas e frustrações da vida adulta esperando que escorram pelas feridas alheias abertas em quem recebe muito bem para se digladiar em horário nobre, com regras e aparato médico para evitar ocorrências mais graves.
Tenho meus favoritos, seja nos antigos eventos japoneses, seja nos americanos: Mirko “Cro Cop” Filipovic, com aqueles chutes espetaculares; Lyoto “Dragon” Machida, com seu comportamento elegante e honrado. Mesmo admirando vários, sempre tive meu favorito. No octógono eu quero ver sangue e “pé na cara”. Ou seja, meu favorito de todos os tempos é o Wanderlei Silva com toda a sua agressividade e pisões na cara de adversários caídos.
Por isso, esperei com certa nostalgia a luta entre Wand e Vítor Belfort, que reacenderia uma rivalidade antiga trazendo uma revanche longamente esperada. Belfort desistiu por problemas de saúde e foi supreendentemente substituído por Acelino “Popó” Freitas, um campeão consagrado de box 20kg mais magro. Não me pareceu uma boa ideia e achei que meu favorito perderia – é maior, mais lento em virtude da idade, e inexperiente no esporte específico. Acabou desclassificado por dar 3 cabeçadas, mesmo que Popó tenha também dado alguns golpes ilegais nele em um momento de queda nas cordas, mas sem sofrer penalidades.
Chamou-me mais ainda a atenção a equipe do Popó invadindo o corner do adversário falando alto e apontando dedos – acho que se sentiram seguros em fazê-lo porque estavam em muito maior número e do lado do Wand havia apenas Thor, seu filho; Dida, seu treinador; e o Werdum, que dispensa apresentações para fãs do estilo. O confronto verbal virou uma briga de rua com socos e pontapés de todos os lados, mas impressionou a todos a forma como os três conseguiram dar combate aos muitos do outro time.
Popó e Wand tentaram apartar, mas Wand foi covardemente nocauteado pelo filho de Popó que lhe atingiu a nuca e depois um soco no rosto que provocou o desmaio. Werdum distribuiu tapas, porque não queria matar ninguém, mas evitava quem estivesse claramente separando; Dida distribuiu socos sequenciais e Thor deu uma corrida em um dos homens de terno que amedrontaria o mais sereno dos mortais.
Saldo de tudo: Popó, mesmo que tentasse evitar o confronto saiu com a imagem manchada pelo mau comportamento de sua equipe e o seu filho com fama de covarde por ter atingido Wanderlei pelas costas. Aprendizado: evite brigar, mesmo que esteja em grande número, se na sua frente estiverem três lutadores profissionais. Não vai ficar bonito para você.
Mesmo que no ringue a briga tenha sido feia e antiesportiva, é importante ressaltar que surra mesmo dá o Congresso nacional nos brasileiros quando empata pautas tão necessárias quanto a isenção de imposto de renda, taxação dos ricos e o pacote de combate à criminalidade. Perder de verdade é ver gente eleita pelo povo que não se constrange de trabalhar contra ele.
A isenção até saiu: foi aprovada pelos deputados e segue para o senado. Mas não se deixe enganar: é uma tentativa de “limpada” na imagem depois das lambanças recentes. Sigamos atentos para evitar mais golpes baixos e conduta antiesportiva de nossos mandatários.
Prof. Erica
