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Intolerância religiosa com patrocínio público

20 de setembro de 2025
in Gerais
Fala de pastor em evento religioso gera indignação em Lafaiete

Pastor Marco Feliciano, no Celebrai, em Lafaiete

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No evento evangélico “Celebrai”, que recebeu apoio da Secretaria de Cultura de Conselheiro Lafaiete e aporte de R$60.000,00 (sessenta mil reais) da prefeitura, viu-se, em determinado momento, um ataque frontal à cultura e às tradições da cidade que possui fortes laços com religiões de matriz africana. O pastor convidado, Marco Feliciano, que também é deputado federal pelo PL-SP, demonizou entidades cultuadas em religiões como Umbanda e Candomblé emitindo frases imperativas, como se as expulsasse da cidade.

Ninguém tem autoridade para expulsar da cidade crenças e raízes que são caras a seus adeptos e fazem parte da história de Lafaiete: município de forte cultura negra com Congado, terreiros com mais de meio século de existência e até mesmo um Quilombo.

Impressiona o acontecido, mas impressiona também a ignorância de alguns que querem defender o indefensável. Por isso, é preciso que se esclareça: a liberdade de culto garantida pela Constituição não permite ataques a outras religiões. Por exemplo, se o tal pastor estivesse repreendendo, expulsando “o Diabo, Satanás” ou algo que o valha – ele está falando de algo que faz parte de sua religião, que está em seu livro Sagrado. Algo de seu domínio de conhecimento e fé. Eu não diria nada.

Porém, quando ele fala de “Zé Pelintra, Tranca Rua, Preto Velho” – ou qualquer outra entidade de culto de outras religiões – excede o domínio de sua fé e passa a usar do poder que lhe confere o microfone para espalhar intolerância, medo e violência. Claro que há quem argumente: “ah, mas em cultos de libertação dentro das igrejas eles se manifestam” – e eu, como sacerdotisa de Umbanda, inclusive com livro de teologia lançado, afirmo: quem acha isso está sendo enganado por Espíritos que não têm compromisso com a verdade – e você, cristão tradicional, não tem capacidade ou conhecimento para diferenciar e eu, que tenho, afirmo: esses que se manifestam NÃO SÃO quem dizem que são e você está tomando como verdade irrefutável a palavra de quem, na sua crença, é um Demônio. Bastante “inocente” de sua parte, não acha?

Falas violentas como as vistas em nossa cidade se refletem na realidade: houve um aumento de mais de 80% dos casos de intolerância religiosa no Brasil e as maiores vítimas são pessoas de Umbanda e de Candomblé, não por coincidência, religiões de origem africana (CNN). A intensidade da violência varia, mas existem até ataques físicos, como o que ocasionou a morte de mãe Gilda após uma publicação difamatória na Folha Universal, jornal pertencente à Igreja Universal. Há ainda a pedrada na cabeça de Kayllane (criança de Candomblé que tinha 11 anos à época da agressão) e a depredação constante de terreiros. Sem esquecer dos “traficrentes”, os traficantes evangélicos que expulsam adeptos de religiões afro-indígenas de “suas” comunidades usando de violência extrema. São ataques diários em vários níveis em todo o país.

Nesse contexto, não se pode ignorar o papel que lideranças religiosas exercem quando incitam seus fiéis à violência por demonizarem nossos símbolos e crenças. É claro que existem forças em contrário: destacam-se os pastores Ed Kivitz e Henrique Vieira, esse último também deputado. Há ainda os padres Josileudo Queiroz e Patrick. Cada qual em seu segmento se esforça em divulgar um ambiente de respeito entre credos mostrando que mesmo que se creia diferentemente é possível conviver bem. Ao ouvi-los sempre tenho a impressão de estar em contato com o Deus de amor que eles pregam.

Algo bem distante do “deus do ódio” tão presente nas falas de alguns que com suas “pregações” aumentam o medo, a ignorância e alimentam a violência. Mas para esses, falo com firmeza e, comigo, a força dos meus ancestrais: não seremos expulsos de Lafaiete, nem nós, nem nossas crenças. Nossas raízes são firmes aqui e somos tão cidadãos quanto pessoas de outros credos.

É sempre tempo de lembrar: os povos de terreiro merecem respeito! Basta de violência!

Profa. Érica
@ProfaEricaCL

Fontes:

CARDOSO, Alan. Intolerância religiosa no Brasil cresceu mais de 80%, diz estudo. In CNN Brasil. Consultado em 16/09/2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/intolerancia-religiosa-no-brasil-cresceu-mais-de-80-diz-estudo/

BERNARDO, André. Liberdade religiosa ainda não é realidade: os duros relatos de ataques por intolerância no Brasil. In BBC. Consultado em: 16/09/2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64393722

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