Em Conselheiro Lafaiete, a notícia caiu como um raio em céu azul. O vídeo publicado por Paulinho Demolidor, artista que transformou madeiras de demolição e ferro velho em obras de memória e sensibilidade, soou como um desabafo. Um grito em meio ao silêncio. O espaço cultural que ele construiu com as próprias mãos, na MG-482, nº 1458, no Bairro Gigante, precisa ser devolvido aos proprietários. O prazo: um ano para desmontar tudo. E agora?
Um espaço que não cabia em definições
Ateliê, museu, oficina, loja, jardim… O espaço de Paulinho é, como ele próprio define, “tudo junto e misturado”. Quadros conviviam com esculturas, móveis dialogavam com plantas, e cada canto revelava um pedaço da alma do artista. Era mais que um galpão: era um coração pulsando cultura em Lafaiete.

E pensar que tudo começou com a ideia de fabricar móveis rústicos. Mas a vida, com suas curvas inesperadas, levou Paulinho a algo maior. “Quando cheguei ali estava prestes a completar 50 anos. Foi quando entendi que precisava dar uma guinada na vida, deixar nascer o artista que estava guardado dentro de mim”, relembra.
Do auge ao impasse
O momento é de contraste. Em julho, Paulinho foi homenageado pela Câmara Municipal com a Comenda Wilma Henriques, reconhecimento máximo da arte em Lafaiete. Também já ganhou visibilidade fora da cidade: expôs em Belo Horizonte, levou uma escultura para o festival do Museu Inhotim e viu sua obra ganhar novos olhares.
Mas a realidade é dura. Sem o espaço, sem recursos para adquirir um novo imóvel e com um acervo volumoso, o artista se vê diante de um dilema. “Não tenho condição de manter sozinho essa ideia viva. Mas o acervo está preservado. Agora, com união, podemos encontrar um caminho”, afirma.
Entre o artista e o gestor
Paulinho fala como quem trava uma batalha interna: de um lado, o criador que precisa continuar produzindo; do outro, o gestor que precisa lidar com contas, prazos e negociações. “É uma guerra dentro de mim. Uma metade grita que preciso de dinheiro, a outra insiste que preciso criar. É cruel viver essa contradição”.

E é justamente nesse embate que surge o apelo. O apoio coletivo, tanto do poder público quanto da sociedade civil. O secretário de Cultura de Lafaiete, Geraldo Vasconcelos, já sinalizou interesse em conversar com o artista. Movimentos culturais, amigos e admiradores também se mobilizam. Mas, por enquanto, nada está garantido.
Uma chama que insiste em não se apagar
O vídeo de despedida, feito quase como um último suspiro, acabou despertando algo maior, pois mobilizou a cidade inteira. “Eu fui abraçado não só pela classe cultural, mas pela população. É lindo. Isso aquece o coração. Mostra que não dá para parar”.
Paulinho Demolidor pode estar prestes a desmontar um espaço físico, mas sua arte, feita de pedaços de madeira e ferro retorcido – pedaços de vida -, segue intacta. A pergunta que fica no ar é: será que Lafaiete permitirá que esse acervo se perca?
Enquanto isso, as peças repousam, sendo embaladas, aguardando o próximo palco.
Por: Jornalista Marcos Ribeiro.
