Por Jornalista Marcos Ribeiro
O que antes era dito em sussurros ou restrito a relatórios de especialistas veio à tona com força de tsunami: a adultização e a sexualização de crianças nas redes sociais não são apenas um efeito colateral do mundo digital, mas um negócio bilionário alimentado por algoritmos e pela passividade criminosa das plataformas
Um vídeo publicado pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, virou uma espécie de catarse coletiva no Brasil. O vídeo já ultrapassou 29 milhões de visualizações e obrigou a sociedade e o próprio Congresso Nacional a olhar para uma ferida exposta que há muito tempo vem sendo ignorada.
Felca faz o que os gigantes da tecnologia fingem não ser possível. Em poucos cliques, cria um perfil, curte fotos de crianças e, como num passe de mágica, seu feed é inundado por conteúdos sugestivos. É a simulação de um pedófilo em ação.
Se um youtuber consegue mapear em minutos, como explicar que empresas multibilionárias com equipes inteiras de engenharia e inteligência artificial não enxerguem o mesmo? Ou será que enxergam, mas preferem não agir, já que cada clique rende engajamento e, portanto, dinheiro?
As denúncias de Felca não nascem no vácuo. Há casos concretos em andamento, como o de um influenciador que exibia adolescentes em reality shows de beijos e danças sensuais, investigado pelo Ministério Público. A lógica é cruel e perversa, pois o lucro fala mais alto que a lei, o algoritmo mais alto que o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Pesquisadores alertam para os efeitos invisíveis, mas duradouros, dessa exposição. Quando a lógica das redes antecipa preocupações com estética, status e consumo, a consequência é um rastro de baixa autoestima, ansiedade, depressão e traumas que não desaparecem com o tempo. É como plantar sementes em solo fértil e colher tempestades emocionais anos depois.
Para os criminosos, pouco importa se o conteúdo é produzido pela criança, por terceiros ou até por pais orgulhosos exibindo os “primeiros passos” nas redes. Tudo pode ser capturado, manipulado e reempacotado em circuitos de pedofilia que usam hashtags como senha e criam um mercado paralelo de exploração. O alerta soa como um soco no estômago: a inocência transformada em combustível para o crime.
A denúncia quando é repetida, como a que fere direitos autorais cai em segundos. Uma música sem licença some do ar quase instantaneamente. Já conteúdos com crianças expostas sexualmente permanecem online, mesmo após denúncias em massa. Se as empresas conseguem detectar certas denúncias em milésimos de segundo, como não conseguem identificar um perfil pedófilo? A pergunta é incômoda, mas inevitável: incapacidade técnica ou conivência lucrativa?
O mundo digital opera em outra lógica, na qual a infância é apenas mais um nicho de mercado. Até quando a sociedade aceitará que a inocência seja mercadoria? Quantas vidas precisarão ser devastadas até que plataformas assumam seu dever de cuidado?
Enquanto isso, sob pressão da sociedade, o Congresso Nacional reage e aprova o Projeto de Lei 2628/2022, que estabelece regras para proteção e prevenção de crimes contra crianças e adolescentes em ambientes digitais, bem como obriga as plataformas a adotarem medidas contra crimes na internet.
A resposta talvez não esteja apenas em códigos e leis, mas na proximidade. Especialistas lembram que a maior barreira contra o crime digital é o afeto. Que crianças e adolescentes se sintam seguras para recorrer aos pais, tutores e professores quando algo acontecer, e não para os braços de criminosos que se disfarçam de amigos.
No fim, proteger a infância é mais do que vigiar telas. É, sobretudo, resgatar vínculos humanos que nenhum algoritmo é capaz de replicar.
