Por jornalista Marcos Ribeiro
No Brasil, a taxa de desemprego caiu para 5,8% no trimestre encerrado em junho de 2025, registrando o menor índice desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. Pela primeira vez, o país rompeu a barreira dos 6% e bateu recordes de população ocupada, empregos com carteira assinada e trabalho por conta própria.
O retrato é, à primeira vista, o de um mercado de trabalho aquecido. Mas será que isso significa prosperidade para todos? Ou estamos diante de um daqueles retratos emoldurados que escondem rachaduras na parede?
Economistas chamam atenção para o fato de desemprego baixo não é sinônimo automático de pleno emprego. Há quem defenda que a chamada “taxa natural de desemprego” no Brasil gire entre 6% e 8%. Se isso estiver correto, já estaríamos, teoricamente, em pleno emprego. Mas o cenário real está longe da fotografia ideal.
Os números escondem as sombras. Quase 40% dos trabalhadores ocupados atuam na informalidade, ou seja, sem carteira assinada, sem CNPJ, muitas vezes sobrevivendo de bicos. São 37,8% de brasileiros que, embora “ocupados” para a estatística, vivem sem proteção trabalhista, sem garantias previdenciárias e com renda instável.
É como se quase quatro em cada dez trabalhadores caminhassem sobre uma ponte improvisada. Ainda que cruzem o rio, qualquer vento forte pode derrubar. Enquanto o emprego cresce, a inflação corrói o poder de compra.
No primeiro semestre deste ano, o preço dos alimentos, item básico e sensível, subiu mais do que a renda. De que adianta mais gente trabalhando, se o salário evapora no caixa do supermercado? A sensação de melhora só começa a ensaiar sinais tímidos agora, com alguma desaceleração nos preços.
O pano de fundo é ainda mais complexo: a taxa básica de juros (Selic) está em 15% ao ano, uma das mais altas do mundo. O Banco Central justifica o aperto como forma de conter a inflação, mas o custo desse freio é o esfriamento da economia.
Com crédito caro e consumo travado, a tendência é que o mercado de trabalho perca fôlego nos próximos meses, estabilizando o desemprego em patamares semelhantes aos atuais, sem novas quedas expressivas.
Para completar, há fatores externos que ameaçam setores específicos. O tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Embora o impacto macroeconômico seja limitado, para as famílias atingidas a consequência pode ser grande. É o paradoxo da estatística: no agregado, o dano é pequeno; na vida real, é um drama irreversível.
O que vivemos hoje é um momento raro para os padrões brasileiros: desemprego historicamente baixo, mas sustentado por pilares frágeis. É como um edifício moderno erguido sobre terreno instável, bonito de se ver, mas vulnerável a qualquer abalo.
Por trás da euforia dos números, há um país dividido entre os que conseguem aproveitar a bonança e os que seguem lutando para não cair na margem da economia. Diante de juros altos e inflação que ainda invade o bolso, até quando esse equilíbrio instável vai se manter?
