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Dona Jandira, uma voz silenciada

22 de abril de 2025
in Gerais
Dona Jandira, uma voz silenciada

Dona Jandira e banda em apresentação no Santa Efigenia/Divulgação

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Quando ouvi Dona Jandira cantar, perguntei a mim e ao universo: por que uma diva da MPB não é reconhecida em nosso país-continente? Não há respostas para injustiças históricas ou estruturais. Mulher preta, nordestina, artesã, professora aposentada e cadeirante em seus últimos instantes.    A cantora, diva do samba mineiro, só foi reconhecida pelo acaso. E dizem que o acaso é uma coincidência de Deus no anonimato.  Dona Jandira conquistou a consagração como artista profissional apenas aos 64 anos graças ao bom senso da crítica especializada e, principalmente, ao público que sabe reconhecer o valor de uma violonista impecável, dona de uma voz singular e impregnada de emoção, algo raro nesta contemporaneidade tacanha que consagra influencers digitais e vozes sem força representativa e com valores estéticos altamente questionáveis.

Dona Jandira quebrou paradigmas e brilhou por décadas na capital mineira, lugar reconhecido pela apuração musical, Clube da Esquina e outras avenidas permeadas pelos escolhidos e acolhidos. Dona Jandira resistiu, cantou e nos encantou com seu carisma e bom-humor diante das adversidades impostas pela vida. Ela amava cantar e viver. Tornou-se uma figura emblemática na cena cultural de BH, com lenço colorido e seu sorriso contagiante. Um ano antes de sua partida, Dona Jandira foi homenageada no Memorial Vale, no Sesc Palladium e no Quilombo do Samba. Ela foi agraciada, aclamada. Titulada cidadã honorária de BH. Mas nenhum artista vive de homenagens. Há boletos que devem ser pagos. E eles sempre vencem, com data marcada, mais que o talento inegável de uma mulher que se apresentava apenas para nos alegrar e nos relembrar que a vida não pode impor limites de idade, de mobilidade.

Fui assessor de imprensa dela desde o lançamento de seu DVD, lançado no Palácio das Artes, local propício para uma rainha, onde dividiu o palco com Túlio Mourão e com o saudoso e genial Luiz Melodia. Ela era talentosa, carismática e determinada. Mas isso não bastava em um sistema que requer uma infraestrutura mínima para celebrar a narrativa de uma mulher que vai além de adjetivos ou homenagens midiáticas. Ela gerenciava a própria carreira com a obstinação de contar a sua história, o seu legado.

Apenas em 2023 Dona Jandira foi incluída no Mapa Cultural de BH que é uma plataforma colaborativa que reúne informações sobre a cultura de Belo Horizonte. A plataforma é gerida pela Fundação Municipal de Cultura (FMC). Reunimos esforços para contar a história de Dona Jandira por meio da publicação da biografia dela em primeira pessoa.  A cantora já estava com a saúde bastante debilitada e corríamos contra o tempo para contar a história de Dona Jandira por meio de entrevistas e, principalmente, com a supervisão dela. Fizemos a inscrição do projeto no Edital LMIC 2023, na modalidade do Fundo Municipal de Cultura. Segundo a (FMC), o projeto foi desclassificado por falta de anexos. Entramos com recursos e anexamos todos os documentos solicitados. Mesmo assim, o projeto não foi aprovado.

Dona Jandira foi à Fundação Municipal de Cultura para saber os motivos da desclassificação do projeto. Foi bem recebida pelos técnicos da (FMC) com a formalidade educacional das instituições. Mas infelizmente, não aprovaram o projeto, o qual ela era a proponente.  Dona Jandira ficou bastante abalada e decepcionada, pois a história dela é um pacote de representatividade e de resistência. Após o falecimento de Dona Jandira, ocorrido em 04 de outubro do ano passado, fizemos a submissão da biografia via Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), Edital de Chamamento Público SMC Nº 03/2024 – BH FOMENTO PNA. Neste edital, o   projeto ficou enquadro como aprovado, mas como suplente na posição 114° e com 90 pontos nos critérios de avaliação estabelecidos.

A aprovação efetiva para publicar a biografia de Dona Jandira torna-se crucial para registrar a memória da cantora, que era uma personalidade marcante e atuante na cena cultural de Belo Horizonte.  Mesmo com suas limitações de saúde, Dona Jandira se apresentava voluntariamente em diversos espaços culturais da capital e valorizava os cantores e compositores da nova geração. Portanto, é necessário que o Poder Público estabeleça leis específicas e voltadas para garantir o registro e a difusão das memórias estéticas e pessoais dos artistas da terceira idade. Trata-se de um direito cultural que não pode ser violado e nada justifica a suplência de um projeto tão necessário para as futuras gerações.

Dona Jandira é um marco da história cultural de Belo Horizonte. O registro de suas memórias, mesmo em terceira pessoa, é essencial para assegurar a equidade de oportunidades na classe artística e os direitos culturais das pessoas que foram vulnerabilizadas historicamente, como os idosos, as mulheres e a população negra. É necessário reacender a chama do legado de Dona Jandira, como um meio de combater o etarismo e os limites impostos por um sistema cultural sem prioridades estabelecidas para os artistas com saúde agravada.  Há um provérbio bem incisivo: “Quando um ancião morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse”.

Éverlan Stutz é jornalista, poeta, especialista em Gestão do Patrimônio Cultural pela PUC Minas

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