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Qual a importância de um nome?

12 de abril de 2025
in Gerais
Qual a importância de um nome?
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Essa é a pergunta que venho me fazendo desde que recebi a nota de falecimento de Gabriela. Ela, uma mulher trans que havia escolhido seu nome, foi chamada repetidamente pelo nome que rejeitou em portais de notícias, pela funerária e por várias pessoas que se posicionaram sobre sua partida precoce no ato maior de desconexão com a vida, o suicídio. Seu nome real, Gabriela, apareceu apenas entre parênteses, como um mero detalhe, não mais do que um apelido.

Foi solicitação da família, segundo afirmado, e devo dizer que compreendo a funerária, contratada para prestar serviços e presa ao acordo comercial. Falando na família, solidarizo-me com a perda irreparável pela qual estão passando e essa será a única menção que farei a eles no texto, que não objetiva culpar ninguém por essa tragédia.

Mas me vi presa no pensamento sobre Gabriela, uma jovem por volta dos 20 anos, que não conheci, mas que poderia ter sido minha aluna. E a pergunta veio: por quê?

É claro que, no caso de Gabriela, podemos apenas cogitar porque não sabemos as causas reais de seu sofrimento. Mas no caso de pessoas trans, no geral, há material a ser pesquisado com dados interessantes e chocantes.

É importante entender que a população trans é um recorte populacional muito pequeno estimado em 0,69% no Brasil (Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu). A cada 200 pessoas, 1 poderá ter essa identidade. Isso é menos do que indígenas (0,83%) e pouco mais do que ciganos (0,41%).

Pessoas trans são tão poucas que, em cerca de 30 anos de magistério, em escolas públicas e privadas, tive 3 alunos trans no ensino médio: dois homens e uma mulher – e nenhum deles assumiu identidade de gênero na escola, somente tempos depois, já adultos. E pasmem: um deles, o R*, assim como Gabriela, também cometeu suicídio.

Sendo tão poucas as pessoas trans, sempre me gera espanto a quantidade de ódio gratuito que atraem da sociedade. Ódio vindo de gente que, provavelmente, nunca viu pessoalmente uma pessoa trans – porém têm imaginação fértil o suficiente para imaginá-las em todas as escolas do país e invadindo todos os banheiros públicos pervertendo os bons costumes e a ordem social (nesse ponto, me imagine revirando os olhos).

Sabe o que todo esse ódio causa?

Segundo a revista The Lancet, 66% das internações de jovens trans nos EUA acontecem em virtude de tentativas de suicídio. Entre as pessoas cis, aquelas que não são trans, a porcentagem é de 5%. Em estudo no Brasil, verificou-se a estimativa de que 85,7% dos homens trans já cogitaram o suicídio. Esses números são um tapa na nossa cara e se não lhe assustam ou sensibilizam é porque, provavelmente, você é parte do problema.

A ANTRA, ao falar sobre as questões de saúde mental que afetam a população trans coloca algumas coisas que, agindo em conjunto, podem ser consideradas responsáveis por esse altíssimo índice de suicídio: falta de políticas públicas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, pressão familiar e social que fazem com que eles e elas vivam com medo. Um dos dados da pressão feita pela sociedade é a recusa do uso do nome social.

O que nos traz, novamente, ao nome. Qual a importância de um nome? Qual a importância do SEU nome para você? Não é ele uma parte indispensável de sua marca humana no mundo? Se todos insistissem em chamar você por um nome que odeia, que não representa o que você é, como se sentiria? Se insistissem em lhe chamar por um nome que lhe envergonha, no caso dos registros vexatórios, você não se sentiria alijado de si mesmo? Não sofreria? Por que seria diferente para a população trans? Por que seria diferente com Gabriela? São as perguntas que todos nós deveríamos estar nos fazendo nesse momento.

Em respeito a ela, como uma lembrança, repeti seu nome, Gabriela, várias vezes nesse texto pequeno, como um pedido de perdão, como um reconhecimento de sua existência e humanidade, mesmo que eu, pessoalmente, não a tenha atacado com minha indiferença, como outros fizeram em vida e em sua morte. Seu nome, Gabriela, é uma ferramenta de memória de sua identidade.

Repito seu nome, Gabriela, desejando que você esteja, finalmente, em paz.

Nota:

Se você tem pensamentos suicidas ou precisa de ajuda nesse sentido:

  1. ligue 188.

Centro de Valorização da Vida

Disponível 24 horas

  1. Procure o CAPS de sua cidade.

Fontes

ALEJANDRO, Diego. Tentativa de suicídio representa 66% das hospitalizações de jovens trans. In Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/tentativa-de-suicidio-representa-66-das-hospitalizacoes-de-jovens-trans/

ANTRA. Precisamos falar sobre o suicídio de pessoas trans. Disponível em: https://antrabrasil.org/2018/06/29/precisamos-falar-sobre-o-suicidio-das-pessoas-trans/

Crônicos do dia a dia. População trans e saúde mental. https://cdd.org.br/noticias/populacao-trans-e-saude-mental/#:~:text=De%20modo%20recente%2C%20um%20relat%C3%B3rio,ato%20(LUCON%2C%202016).

 

 

 

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