Existe mesmo um modo de morrer várias vezes, como se a própria vida se despedisse em múltiplas estações. Ao encontrar o imponente ipê-amarelo da rua Padre Alcides, no bairro Matriz, em Congonhas, já caído, senti o peso de uma partida que ecoava no tempo. Aqueles que conheceram Tetê Vargas, a senhora que por décadas nutrira seu ipê-amarelo com tanto carinho, já haviam agradecido a Deus por seu adeus.
Aquela árvore, símbolo de resistência e beleza, tornou-se o último suspiro de Tetê, que já havia se despedido do mundo. O temporal desta segunda-feira, 31 de março, levou consigo mais um pouco de sua essência – a mesma que transbordava no sorriso que vendia cachorro-quente no Monteirão, no atendimento afetuoso no SERVAS e nas agulhas que teciam sonhos na escola de samba Mocidade.
Tetê, com sua vida repleta de pequenos gestos de amor, tinha como confidente a geniosa Bahiana, também costureira voluntária – lógico que pelas fantasias da minha amada Jacuba –, cuja amizade era tão sincera quanto a arte que ambas cultivavam. E assim, entre histórias entrelaçadas pelo afeto, o tempo seguiu seu curso: foi-se Tetê, foi-se Bahiana e, agora, foi-se o ipê-amarelo – cada partida, um capítulo na eterna dança entre a vida e a morte, entre o gesto e a despedida.
Por: Alexsandra Barbosa Gabriel.
Foto: Rádio Educativa FM
