No último fim de semana, ao fazer o ENEM, alunos de todo Brasil tiveram que versar sobre o tema: “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”.
Alunos de Lafaiete tiveram um extra: puderam citar um fato local para exemplificar. O comércio na cidade abrirá no dia 20 de novembro, contra a determinação do governo federal que estabeleceu a data como feriado nacional – mas amparado pela Convenção Coletiva de Trabalho da área que permitiu essa convocação. O trabalhador não receberá horas-extras, nem poderá tirar um dia de folga para compensar. Terá uma ajuda de custo a título de alimentação no valor de pouco mais de cinquenta reais.
É como se o comerciante em nossa cidade dissesse que o feriado de 20 de novembro, feito para conscientizar, pudesse ser ignorado e tratado como outro dia qualquer.
Quando na verdade, foi feito para lembrar de alguns fatos relacionados à escravidão que repercutem duramente no presente. Com o tráfico, pessoas foram arrancadas de suas próprias vidas sendo, elas mesmas e toda a descendência por vir, condenadas à tortura física, mental e espiritual. De pessoas passaram a objeto, como uma mesa ou cadeira; ou ainda um animal, como um cavalo – de quem se poderia dispor ao bel-prazer, inclusive para abusos sexuais.
Nesse contexto, nasce no Quilombo dos Palmares, Zumbi. Palmares já existia há dezenas de anos, talvez uma centena e tinha intenso comércio com as regiões vizinhas. Possuía sua própria cultura, danças, religiosidade. Abrigava negros fugidos e/ou ali nascidos, brancos pobres e indígenas, segundo afirmam historiadores.
Zumbi era um homem livre, que mais tarde veio a se tornar comandante de guerra de Palmares. Esse líder, que orientou guerrilha e combateu por meses contra os bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho, mostrou-se um estrategista incrível. Foi apenas derrotado após uma delação arrancada por meio de tortura.
Esse é o símbolo retratado no 20 de novembro. É a essa potência de homem revestido de mito que se homenageia na data buscando-se que os negros de hoje espelhem-se em sua grandeza – e os brancos, que compreendam a profundidade da crueldade da história das relações raciais no Brasil. Crueldade essa que exige reparação que busque trazer a movimentação social para o negro hoje com a diminuição até a extinção dessa praga, inventada pelo invasor e traficante de pessoas europeu, chamada racismo.
Para isso, precisamos de consciência para entender que, mesmo que nenhum branco ou branca vivo hoje seja responsável pela escravidão passada, ainda assim colhe privilégios pequenos e grandes frutos dessa história, como: não ser perseguido em lojas, não ser considerado o suspeito imediato de algum crime cometido em sua presença, não ser rejeitado em uma vaga de emprego pela cor de sua pele e outros. Enquanto os negros, no presente, mesmo que jamais tenham sido escravizados e sejam a terceira, quarta geração depois do fim oficial da escravidão, ainda colhem os frutos podres, pequenos e grandes, do que foi feito a seus antepassados. Perseguição em lojas, suspeito imediato de um crime cometido em sua presença, rejeição em vagas de empregos pela cor de sua pele. E esses humilham, mas nem são os piores.
É por isso que precisamos de consciência. É por isso que a data do 20 de novembro não é qualquer feriado que pode ser simplesmente ignorado. É em virtude do que nós, enquanto sociedade, ainda precisamos crescer e amadurecer para tratar-nos uns aos outros, enfim, como iguais.
E é por isso que a abertura do comércio nessa data constrange, envergonha e mostra-se como uma omissão frente aos dados concretos do racismo.
Então, sem jamais ignorar a importância do comércio para nossa cidade, pergunto: você, amigo empresário que decidiu votar pela abertura, tinha consciência de tudo isso? Tendo agora, o que fará?
Fontes:
(Re)Veja aqui a história do maior Quilombo da América Latina. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/re-veja-aqui-a-historia-do-maior-quilombo-da-america-latina.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
