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Violência sempre gerará mais violência

20 de abril de 2023
in Gerais
Violência sempre gerará mais violência
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Estamos aqui debruçados sobre o grave problema de ataques e planejamento de ataques às escolas. O Ministro Flávio Dino mencionou a prisão de 225 pessoas em prevenção de possíveis ocorrências.

Juro para vocês que esse número me deixou assustada. Que somos um país violento em todas as suas instâncias é inegável. Ainda assim, mais de duas centenas de presos, possivelmente, planejando ou colaborando para que se matassem crianças e professores em apenas dez dias soa aterrorizante.

Mas ainda acredito que o melhor é mantermos as escolas abertas – com reforço das medidas de segurança, claro. É preciso atuação de polícias, de inteligência investigativa – mas não apenas isso.

É preciso que nos perguntemos qual país desejamos ser e qual futuro desejamos construir – porque a violenta realidade presente é um dado inegável.

Nosso país é campeão em assassinatos de LGBTQIA+, é reconhecido por sua violência contra povos indígenas, tem instituições de comportamento racista que gera coisas esdrúxulas como pessoas negras sofrendo múltiplos processos por crimes que não cometeram em virtude de identificação por foto (que nem deveriam estar) em delegacias, trabalho escravo, e, claro, sem esquecer, a sempre presente violência doméstica.

Falando nela, tivemos essa semana mais um feminicídio em Lafaiete que vitimou a Charlene, 37 anos, 3 filhos. Indignamente morta por asfixia com uma cueca.

É vergonhoso imaginar que enquanto eu escrevo esse texto, mulheres estarão sendo violentadas (1 a cada 11 minutos), espancadas (26 a cada hora) e mortas em virtude de serem mulheres (3 a cada dia).

Enquanto você lê também. Os números se repetem vergonhosamente a cada dia acumulando vítimas. Enquanto vão se repetindo, tais números deveriam também nos conduzir a uma profunda reflexão. A realmente olhar ao nosso redor e para nós mesmos observando nosso ser-estar no mundo.

O extremo da violência que acumula vítimas dentro de casa e pelas escolas nada mais é do que o reflexo da violência cotidiana que muitos de nós exercemos, seja na família, seja no trânsito, por exemplo.

Outro dia um amigo me relatou a maneira como foi fechado por uma moto em uma ultrapassagem proibida numa curva do centro da cidade. Ele estava com sua mãe idosa no carro retornando da diálise, fragilizada. Quem conhece o tratamento sabe como é. Quando reclamou foi xingado e ouviu: “Você nem é polícia pra chamar minha atenção” – e teve que parar de discutir para tanto evitar maiores constrangimentos para a mãe, quanto um ataque ao carro (como um chute no retrovisor).

Todos também vimos o vídeo de um homem que, ao ter o carro atingido por uma motorista que não ia parar para avaliarem o prejuízo, debruçou-se sobre o capô do carro da mulher como única forma de garantir a reparação que julgava necessária. A sequência da mulher avançando com o carro com o homem pendurado na frente é aflitiva, desconcertante. Ambos foram parar na delegacia.

Sim, vivemos o momento em que as pessoas, incapazes de autorregulação, apenas são impedidas de ações incorretas, criminosas, antiéticas, etc. – se houver quem as vigie ou quem se imponha fisicamente em seu caminho. De outro modo se sentem livres para usarem de violência verbal, física, patrimonial. Para fugirem de suas responsabilidades humanas e cidadãs.

Se pensarmos bem, até nossa forma de nos agregarmos religiosamente traz, tantas vezes, a violência na fala que se expressa pela rejeição do outro em discursos cheios de ódio e julgamentos. Vemos líderes religiosos que, com alguma frequência, falam mais do que o outro não deve ser do que sobre as maneiras apropriadas de seus adeptos serem melhores fiéis se aproximando mais de Deus ou trilhando de maneira mais efetiva o caminho da evolução. E ainda usam a liberdade religiosa, algo caro em um estado laico, como desculpa para tais falas sendo aplaudidos por muitos que pensam igual.

Isso me dá a impressão de que tão imersos em uma sociedade violenta estamos que, de alguma maneira, não somos capazes de reconhecermos certas formas de violência quando nos deparamos com elas e acabamos por legitimá-las aceitando-as, até mesmo, em púlpitos religiosos.

O que sei é que precisamos urgentemente repensar nossa maneira de existirmos e de caminharmos pelo mundo. Ou isso – ou a barbárie que queríamos superada ainda teimará em nos acompanhar em todas as camadas de nossas vidas.

Queremos mesmo isso? E se não queremos, quais serão nossos próximos passos visando nos tornarmos uma sociedade mais pacífica e tolerante?

Profa. Érica
@ProfaEricaCL

UniFASar

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