É muito triste me sentar para escrever minha coluna e ter como assunto “quente” a morte de crianças em uma creche. É lamentável. É desolador. É ser obrigada a encarar de frente o quanto estamos falhando como sociedade sentindo-me completamente revoltada e impotente.
E vulnerável.
Porque eu, professora, cada vez mais vejo-me no papel de pensar rotas de fuga e maneiras de proteger a mim mesma e aos meus alunos em caso de ataque – não de lunáticos, mesmo que um ou outro seja perpetrado por quem realmente tem sérias questões mentais.
Não são lunáticos em sua maioria. São pessoas comuns, a maior parte, homens jovens (até mesmo adolescentes), brancos e que possuem em comum a radicalização de suas mentes. E isso passa longe do que, normalmente, chamamos de loucura.
Inclusive, acho que devemos evitar esses termos porque eles teimam transferir a responsabilidade de lugar – imputam a uma disfunção na mente o que, na verdade, é uma decisão consciente de alguém que deseja tornar-se herói em meio aos radicais.
A radicalização nos assalta e nos ameaça. Massacra nossas crianças e profissionais da educação, notadamente professores, que se tornaram alvos preferenciais dessa gente má.
Dessa gente que se vê atacada porque mulheres, negros, LGBTQIA+ não desejam mais serem cidadãos de segunda classe e lutam pelo reconhecimento real de sua cidadania e pelo que tudo isso significa em termos de educação, oportunidades de trabalho, lazer, salário etc. Dessa gente que acredita piamente em sua superioridade sobre os demais cidadãos e na premência de suas próprias necessidades sobre as necessidades dos demais.
Dessa gente que é capaz de direcionar seu ódio portando facas, machados, bestas, armas de fogo sempre que possível, para descarregá-lo sobre pessoas tão indefesas quanto Bernardo de 4 anos, uma das vítimas de hoje.
Quatro anos.
Observo que os alvos diretos são apenas representações de quem eles desejam atingir: a sociedade. Fazem isso atacando os que nos são mais caros – filhas, filhos, netos, netas. O futuro. A esperança. Ou seja: ferem de morte a todos nós.
Eles desejam encher-nos de medo e alimentar nossa insegurança tentando destruir nossa ideia de continuidade.
E não adianta quererem colocar um policial em cada escola. Não adianta tomarem medidas políticas imediatistas agindo com populismo penal. Isso é o mesmo que jogar balde d’água em incêndio.
O fogo já está aí: alto e mortal.
A necessidade das ações é imediata – mas não surtirá efeito imediato, infelizmente.
Porque a única forma de impedir que as pessoas se radicalizem é resgatando-as do convívio com esses grupos que se espalham sem controle, cada vez mais na superfície da internet, pelas redes sociais, fáceis de serem acessados por jovens que, tantas vezes, possuem problemas de relacionamento e lidam muito mal com seus sentimentos de solidão, abandono e falta de pertencimento.
É preciso que haja ações de inteligência para descobrir tais grupos que cooptam pessoas oferecendo a elas o pertencimento que desejam e oferecendo a elas inimigos comuns que devem ser atacados e modelos de ofensas gravíssimas, como os atentados em escolas.
Infelizmente, esses grupos passam a incluir gamers o que se reflete até na linguagem divulgada como tendo sido utilizada pelo assassino da professora Elisabete, que se disse em busca de “kills”. É óbvio que vão surgir pessoas querendo culpar os jogos. Isso seria mais uma tentativa inútil de culpabilizar o que é fácil e supostamente óbvio.
Porque a culpa não está nos jogos e nem na internet.
Está na invigilância da sociedade, na inação do poder público, sobre o mal uso das facilidades oferecidas pela rede.
Também é hora de todos fazerem um mea culpa, inclusive líderes religiosos: porque a sociedade somos nós – e há anos estamos nos tornando mais armamentistas, mais violentos. Púlpitos religiosos foram vilipendiados pela presença da política partidária e personalista com sacerdotes fazendo flagrante e ilegal propaganda política por candidatos ditos conservadores, mas que são, na verdade, reacionários e violentos. Os altares e púlpitos continuam sendo vulgarizados por pastores, padres, sacerdotes afrorreligiosos e gente de toda fé incentivando o ódio aos demais e a violência com símbolos como a imitação de armas com as mãos.
É hora de olharmos todos para nós mesmos e entendermos o monstro assassino de crianças que estamos criando em nosso próprio seio com liberdade total de espalhar seus tentáculos de várias maneiras pela sociedade tendo uma de suas piores faces nos ataques às escolas. Esse monstro também aparece refletido em assassinatos políticos, em tiros e morte em pizzarias, na violência doméstica – até na moça que divulgou vídeo comentando como um homem bateu na traseira do seu carro, mas ela foi embora, não parou, por medo da violência e arcou com o prejuízo.
É o monstro que estamos alimentando e que se faz presente no aumento gigantesco em todas as formas de bestialidade que pipocam nas manchetes de jornais diariamente.
Vamos apenas observar inertes a nossa própria animalização?
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
