Próximo de completar 25 anos de uma histórica caminhada, na construção da rica sonoridade musical de Conselheiro Lafaiete, o Madrigal Roda Viva, pelo quinto ano, se une à Paroquia de São Sebastião, para celebrar o Ofício de trevas, durante a Semana Santa. Episódio que vem conquistando status de memória artística, em Conselheiro Lafaiete.
O “Ofício de Trevas” expressa, de forma magnífica, as aflições de Jesus Cristo, no Monte das Oliveiras, advindas nos últimos dias antes da sua prisão e crucificação.

No Tríduo Pascal (os três últimos dias da Quaresma e da Semana Santa: Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia), desde a Idade Média, as Matinas e Laudes foram abertas para a frequência pública e suas dimensões cresceram tanto a ponto dessas duas cerimônias fundirem-se em uma só, que passou a ser chamada de “Ofício de Trevas”. Mas por que “de Trevas”? O emprego da palavra “Trevas”, nesta dupla cerimônia, é alusivo ao episódio narrado no quinto Responsório das Matinas de Sexta-feira Santa – “Tenebræ factæ sunt, dum crucifixissent Jesum” (Fizeram-se as trevas quando crucificaram Jesus), extraído de Mateus 27, 45 – e também à escuridão que se produz na igreja ao serem apagadas as velas do candelabro, para simbolizar a escuridão (uma tempestade ou eclipse solar) que se abateu em Jerusalém da “hora sexta” (atualmente meio dia) à “hora nona” (hoje 15h00), quando Jesus foi crucificado (Mateus 27, 45; Marcos 16, 33; Lucas 23, 44), além da dor pela sua morte e a fuga dos Apóstolos. Esse candelabro possui a forma triangular e espaço para quinze velas,
Ao final de cada um dos nove Salmos, o acólito (ajudante) apaga uma das velas, à exceção da superior que representa Cristo, escondida atrás do altar, após o canto do Benedictus. Terminada a Oração “Respice quæsumus, Domine”, as matracas produzem um estrondoso ruído, destinado a simbolizar o sentimento pela morte de Jesus.
O simbolismo do Ofício de Trevas foi uma das razões que motivou sua antecipação, já na Idade Média, da madrugada para a tarde anterior, além de facilitar a participação dos fiéis, pois à extinção das velas correspondia também a extinção da luz solar, com o final das Laudes em plena noite. Por isso, o Ofício de Trevas da Quinta-feira Santa passou a ser cantado na tarde/noite de quarta-feira, ocorrendo o mesmo para os demais dias do Tríduo Pascal.

A música sempre esteve presente nesse evento. Não apenas a música gregoriana, mas também a música erudita de outros tempos históricos, especialmente a música setecentista (século VXIII) produzida em Minas Gerais. Nessa celebração, podemos conferir extraordinária densidade litúrgico-musical.
No final de cada um dos Salmos que vão sendo cantados, o cerimoniário apaga uma das velas. Ao mesmo tempo, as luzes da igreja vão sendo apagadas também. As velas são apagadas sucessivamente, até restar apenas uma, a branca. Esta vela não é apagada. Continua acesa e é levada para atrás do altar. As velas que vão se apagando representam os discípulos, que pouco a pouco se afastavam de Jesus Cristo, durante a sua Paixão. A vela branca escondida atrás do altar e, mais tarde, outra vez visível, significa Nosso Senhor que, por breve tempo, se retira do meio dos homens e baixa ao túmulo, para reaparecer, pouco depois, fulgurante de luz e de glória.
No fim, apagam-se as luzes para simbolizar o luto da Igreja e a escuridão que baixou sobre a terra quando Nosso Senhor morreu. O ruído de matracas no fim do ofício de trevas significa o terremoto e a perturbação dos inimigos, e recordam a desordem que sucedeu na natureza com a morte de Nosso Senhor. São realizadas leituras dos salmos, lamentações e cantos em latim. Durante o cerimonial, os últimos passos de Cristo são simbolizados por velas que são apagadas aos poucos, até o momento derradeiro.
Após as luzes das velas serem apagadas, a única vela acesa é retirada e dá lugar aos sons de trovoadas, que se refere à morte de Jesus. No entanto, depois desse momento, a vela acesa, volta a ser colocada e todas as luzes da igreja são acesas. Para os fiéis, esse período representa à presença de Cristo.
Todas as terças e sextas feiras, no Solar Barão de Suaçuí, os integrantes do Roda Viva, estão empenhados em exaustivos ensaios e quem está acompanhando assegura que será um dos mais belos espetáculos de fé. É possível encontrar fragmentos dos ensaios, nas redes sociais (facebook, instagram, entre outras) que sugerem a magnitude dessa noite Santa. A Paroquia em comum acordo com Roda Viva, escolheu, do riquissímo acervo do Museu da Música de Mariana, “As Matinas de Quinta feira Santa”, do compositor mineiro, Jerônimo de Sousa Queirós. Composta para coro a quatro vozes; violino I e II; baixo; flautas I e II; trompas I e II.
De acordo com o Professor e Maestro Geraldo Vasconcelos, os elementos instrumentais, destacadamente o violino I – que será executado por Léo Cassilhas – são construídos com fino zelo, e se destacam na composição. Afora as entradas e codas instrumentais, clássicas no estilo, há a ocorrência de interlúdios bem expressivos, que parecem ter por finalidade explicar o texto. Conquanto a peça tenha sido escrita para as quatro vozes – SATB – é acentuada a ausência do soprano em algumas seções, versadas, assim, a três vozes. A composição proporciona multiplicidade tonal, possuindo relações, em vários Responsórios, entre tônica e tônica relativa. Para esse evento, os demais instrumentos foram ajustados em redução para piano, a cargo do instrumentista Paulo Borges, finaliza Vasconcelos.
Além do Madrigal Roda Viva, quem comparecer à Matriz de São Sebastião, dia 05 de abril, poderá apreciar o violino de Léo Cassilhas e o piano de Paulo Borges, adornando a admirável e renovada sonoridade do Madrigal.
Paulo Borges (foto) reside e trabalha em Belo Horizonte. É natural de Machado-MG, iniciou seus estudos com a professora Maria Thereza Garcia. Posteriormente, estudou piano com Jayme Guimarães, através do curso de música da UFSJ. Participou de diversos festivais de música, como Femusc, Música nas Montanhas (Poços de Caldas) e Semana da Música de Ouro Branco, tendo oportunidade de participar de master classes com renomados pianistas nacionais e internacionais. Se apresentou algumas vezes, como solista e camerista, pelos concursos Segunda Musical da ALMG, Música XXI da UFSJ e Jovem Músico BDMG.

Leonardo Cassilhas – Léo Cassilhas, como é conhecido em Lafaiete, é natural de Belo Horizonte. Iniciou seus estudos no SESI em 1989 na turma do professor Sérgio Arraes; Participou do primeiro festival de inverno da UFOP em 1992 no módulo Suzuki; Ingressou no conservatório de música da UFMG em 1995 na turma do professor Max Teppich; Oficinas de música erudita, e composição livre da professora Vera Maria Walter Luz – Orquestra jovem do SESI; Conservatório da UFMG; Orquestra jovem do palácio das artes, e orquestra experimental da PMMG, sob a regência do maestro Capitão Cigarra, além de várias apresentações no país, como a ópera, “a peste e o intrigante, ópera infantil em 1995, no palácio das artes, participações em shows com Marcus Vianna, banda Dogma e outros artistas. Mudou-se para Lafaiete em 2006.
O Ofício será presidido pelo Paroco, Padre Daniel Marcos de Lima. A regência será do Maestro Geraldo Vasconcelos.
Geraldo Vasconcelos
Maestro
