Mais um atentado em escola no Brasil, desta vez perpetrado por um menino de 13 anos. Uma professora morta, mais três professores e um aluno ferido.
Nós, brasileiros, temos memória curta. Tão imersos em nossas preocupações cotidianas não retemos na memória determinados fatos, mesmo que chocantes. Isso faz com que tenhamos a sensação de novidade, ou de “caso isolado” quando nos deparamos com certas situações.
O caso de atentados em escolas é um deles. Concordo que sejam novidade importada – mas não podemos ignorar que vêm acontecendo em maior número a cada ano desde o primeiro deles em 2002, em Salvador (BA).
Novamente, vendo a cobertura da mais recente ocorrência algumas coisas têm me chamado a atenção.
A primeira: a idade de algumas das professoras atingidas. Elisabete, morta covardemente, tinha 71 anos. Uma das feridas, a professora Rita, segundo o Uol News, tem 67 anos. Isso grita sobre a precariedade da educação, que faz com que pessoas já idosas tenham que estar em pleno exercício profissional. A filha da Profa. Elisabete disse que ela, apesar de já ter uma aposentadoria, dava aulas por amor e por acreditar no poder transformador da educação.
Peço desculpas pelo que vou dizer e manifesto respeito profundo por sua dor.
Mas, esse pode ter sido o caso dela? Sim. Mas o caso mais comum quando se veem pessoas dessa idade trabalhando em algo tão extenuante e mal remunerado quanto dar aulas é que seja motivado por boletos. Por precisar comer, vestir, morar e pagar medicamentos.
O amor à educação e o fascínio pelo magistério nos levam à faculdade e aos anos de trabalho. Mas não trabalhamos POR amor. Trabalhamos COM amor, porque lidamos com o humano, não poderia ser diferente. Mas como todo e qualquer profissional, trabalhamos por dinheiro e não somos adequadamente remunerados por isso.
E a situação de ter duas mulheres idosas trabalhando quando deveriam ter direito a uma aposentadoria digna me chamou muito a atenção – e me deu medo do futuro, confesso.
A segunda coisa que tem me chamado a atenção na cobertura midiática é a questão de estarem, novamente, tendendo para uma responsabilização de episódios de bullying que o menor teria sofrido.
E veja: em momento algum eu minimizo a questão do bullying e do sofrimento da vítima.
Porém, do alto dos mais de dez atentados em escola já acontecidos em nosso país, querer ver apenas o bullying como variante atuante para que alguém tome uma decisão tão extrema quanto entrar em uma escola e atacar pessoas é banalizar muitos dados relevantes, inclusive presentes nesse caso lamentável.
O primeiro: a escolha da máscara que tanto remete a grupos neonazistas americanos quanto a, ao menos, dois atentados no Brasil, ao longo dos quais os perpetradores fizeram uso do mesmo tipo de acessório. Ainda a frase usada pelo menor em carta que escreveu para familiares, segundo a qual, estaria fazendo isso “em nome de um bem maior”. Tudo isso remete aos grupos extremistas que vêm cooptando adolescentes e jovens adultos no mundo todo.
E quando digo grupo, não me refiro apenas àqueles organizados, que possuem nomes e diretrizes. Antes, englobo o coletivo de pessoas extremistas que se acham validadas por uma sociedade cada vez mais belicista e violenta. Pessoas facilmente cooptadas por discursos de ódio facilmente encontrados na internet contra aqueles que julgam que lhes tolhem seus direitos. Tais pessoas têm se multiplicado em “chans” (fóruns de discussão) e jogos online.
Elas têm extrema dificuldade de compreender o conceito de uma sociedade mais igualitária, onde todos possuam seus direitos respeitados e estejam protegidos pelo arcabouço legal.
Enxergam negros, LGBTQIA+, feministas como pessoas que atentam contra seus direitos de exercerem seus privilégios. São incapazes de vê-las como pessoas em busca de garantir direitos básicos de existência e vida em sociedade.
Professores também são grandes inimigos e o ambiente escolar, local de intensas disputas, uma vez que reúne todos os tipos de pessoas. Por isso, torna-se o palco para que esses extremistas possam vomitar toda a sua violência contida tornando-se heróis para aqueles que os radicalizaram.
Eles buscam notoriedade e visibilidade – por isso a exposição detalhada de vídeos do ocorrido e dos próprios envolvidos é tão nociva. A violência deles ecoa entre os que pensam igual.
E tudo isso na santa paz do lar, na tela do celular. A criança não precisa mais sair de casa para estar em permanente contato com estranhos mal-intencionados.
Enquanto providências não forem tomadas amplamente, desde a investigação em busca de tais incitadores, até a responsabilização das grandes redes de internet que não coíbem a ação de grupos extremistas de maneira eficaz, continuaremos vendo casos lamentáveis assim acontecendo.
É preciso que todos, família, escola e sociedade trabalhem em conjunto. Ou será uma batalha perdida e com muitas vítimas.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
