A intolerância generalizada sempre esteve presente em nossa sociedade. Fomos ensinados desde pequenos que determinado comportamento é o “certo” para determinadas pessoas – e o divergente é sempre apontado. Seja você um menino que quer uma boneca ou uma menina que gosta de futebol.
Na escola vemos isso de maneira recorrente: toda e qualquer criança que sai do padrão – seja ela gorda demais (ou de menos), retinta demais (ou de menos), pertencente a uma religião não dominante ou qualquer outra coisa que a faça fugir da “norma” – é passível de sofrer bullying. Obviamente, sempre interferimos buscando tanto fortalecer a vítima e educar agressores.
Mas não é algo que realmente passe despercebido.
Nos últimos dias, uma das formas de intolerância, a religiosa, voltou à discussão: tanto em virtude de participantes do BBB23 expressando todo o seu preconceito contra Fred Nicácio, adepto de Ifá, o culto tradicional Iorubá; quanto por questões envolvendo o Carnaval.
Há quem diga que o Carnaval: festa preta com sonoridade originária dos toques de terreiro esteja exagerando na mão quando ressalta Orixás ou outros aspectos da cultura negra. Talvez o quisessem mais… como dizer… branco? Europeu? Colonizado? Domesticado?
Como o caso de Dr. Fred aponta, em uma sociedade que tem baixa tolerância ao diferente, ao que sai da norma, vê-se o índice dessa intolerância se tornar ainda mais intenso quando se trata da religiosidade negra, da cultura negra, dos corpos negros.
E não apenas no Brasil. Pesquisa recente nos Estados Unidos indica que as pessoas consideram mulheres negras de cabelos naturais menos profissionais do que mulheres negras que alisam os fios. Já tivemos episódios que corroboram que a sociedade brasileira não pensa diferente, como quando uma recepcionista em Nova Lima foi demitida em virtude de usar tranças. Foi indenizada posteriormente? Sim. Mas nada muda o fato de que ela tenha sido considerada inadequada por não ter os cabelos “alisados”, por exemplo.
É sempre preocupante quando comportamentos que incentivam que as pessoas coloquem para fora seus preconceitos e falta de aceitação com o outro são incentivados. Tendemos a nos tornarmos mais duros e nossa palatabilidade para a diversidade diminui de tal forma que até quem antes não era vítima passa a ser.
Impossível não pensar no poema de Bertold Brecht, quando é dito que um dia será levado também aquele que não se importou quando outros, que não eram seus iguais, foram levados. Ou seja, se não nos condoemos quando a intolerância atinge outros – pode ser que ela acabe nos atingindo e por termos ajudado a alimentar uma sociedade com alta rejeição ao que foge à norma acabemos massacrados pelo próprio monstro que ajudamos a alimentar.
É por isso que é imprescindível que o caminho da tolerância seja cultivado em um primeiro momento – que ele seja ampliado até que se chegue ao desejado respeito a todos. Temos que manter em mente o paradoxo de Popper que nos ensina que o intolerante e seu comportamento não devem, jamais, serem tolerados. É como permitir o fascismo dentro da democracia – é chocar o próprio ovo da serpente.
É preciso educar a sociedade para dignificar o respeito a todas as formas de viver, de amar, de ser e de existir. A todas as formas de adorar e de conviver – tendo como único limite de ações uma legislação justa e que conceba nossa diversidade como o que é: nossa maior riqueza.
Por isso devemos seguir perguntando: quem tolera os intolerantes? Que não sejamos nós.
Nota: Impossível nesse momento em que os intolerantes se sentem fortalecidos, não prestar solidariedade à Paróquia de São Sebastião, aos fiéis e ao padre Daniel Gomes pelo acontecido com a imagem de Nossa Senhora das Dores. Os danos à imagem da Santa ainda não foram esclarecidos – mas a simples possibilidade de ter sido um ataque é assustadora e muito conhecida das religiões afro-brasileiras que têm seu sagrado desrespeitado diuturnamente. Desejo que os acontecimentos sejam esclarecidos e, sendo acidente ou ataque, que a Santa seja restaurada e devolvida ao seu lugar de veneração. Meu abraço fraterno e solidariedade a todos.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fonte:
Revista Galileu. Mulheres negras com cabelo natural são vistas como menos profissionais. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/08/mulheres-negras-com-cabelo-natural-sao-vistas-como-menos-profissionais.html
G1. Recepcionista negra demitida por se recusar a remover tranças deve ser indenizada em R$30mil. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/11/20/recepcionista-negra-demitida-por-se-recusar-a-remover-trancas-deve-ser-indenizada-em-r-30-mil.ghtml
