Mas isso era tão óbvio que não precisava nem ser dito: armas legalizadas se voltam, eventualmente, contra as autoridades.
Foi exatamente isso que o caso Roberto Jefferson veio nos lembrar: arme-se um maluco com artilharia de grosso calibre e ter-se-á problema.
E olha que eu sequer sou contra que a/o cidadã/o que queira ter uma arma tenha esse direito garantido por lei, com o devido rito legal e restrições necessárias para a segurança da sociedade. Não sou, mesmo. Grande liberal de araque que defende proibições e amarras desnecessárias sobre o indivíduo seria eu se fizesse o contrário.
É claro que em uma sociedade ideal o cidadão comum seria alimentado por interesses outros que não se armar até os dentes. Porém o fato é que vivemos em tempos em que há a valorização excessiva da violência, do arroubo, da vociferação ao ponto de ser bonito, aos olhos de alguns, possuir alguma arma de fogo.
Quando idealmente, possuiriam armas aqueles que gostam do esporte do tiro ou que caçam para a subsistência – e não aqueles que com elas pretendem proteger-se ou aos seus bens, como acontece. Os especialistas em segurança estão cansados de dizer que isso não adianta e temos o maior exemplo na figura do atual presidente que, mesmo militar e armado, foi assaltado e teve furtadas moto e a arma que supostamente teria o poder de lhe proteger de… ser assaltado.
Assim, mesmo não sendo totalmente contra que o cidadão comum tenha algum exemplar de armamento legal, identificado, rastreável e controlado formalmente pelo exército/polícia federal após comprovar condições financeiras, psicológicas e técnicas para tanto saltam aos olhos vários fatos que escancaram erros sendo um dos principais a insinuação de que armas pessoais são proteção garantida contra a expressiva violência social que afeta nosso país.
Esse argumento equivocado é o principal motivador da aquisição de armas por várias pessoas.
Sobre isso, David Hemenway, professor da universidade de Harvard e considerando um dos mais influentes especialistas em violência do mundo, afirma: “O que sabemos com certeza é que uma arma em casa é usada muito mais frequentemente não contra alguém que invadiu sua casa, mas contra sua própria família”.
O professor ainda informa que os riscos de possuir uma arma são maiores que os benefícios, sendo os principais: acidentes fatais, suicídio, violência doméstica, intimidação e mulheres e crianças sendo mortas. É destaque também na fala de Hemenway que “Nos EUA, vemos que Estados com mais armas e leis mais fracas sobre armas se saem bem pior [em ser uma sociedade mais segura] que aqueles com leis mais rígidas e menos armas”.
Por isso, é importante jamais perder de foco de que, se a questão é a diminuição da violência, a exigência do cidadão deve estar sobre os governos. Que tenham ações públicas para coibir isso em um amplo espectro de atuação que vai desde acesso à educação qualificada e emprego para toda a população até a repressão inteligente e bem treinada por parte das polícias.
O posicionamento das autoridades jamais deveria ser em prol de “arme-se para se cuidar e se proteger” – porque isso não dá certo e é uma tremenda “cara de pau”, convenhamos. É como se governos quisessem transferir para nós, cidadãos, algo que é de sua inteira responsabilidade: o combate à violência na sociedade. Muito menos deveriam autoridades utilizarem frases como “povo armado jamais será dominado”.
Dominado por quem, cara pálida? Em uma democracia plena o que temos são instituições que, em seu papel de ordenar a sociedade, precisam fazer muitas coisas – nenhuma delas inclui dominar os cidadãos. Tiranos fazem isso e um dos papéis das instituições democráticas é justamente impedir arroubos tirânicos de governantes.
Quando se incentiva esse pensamento reativo contra autoridades se corre o risco de vê-lo voltando-se contra si mesmo porque sempre haverá um maluco disposto a atirar em policiais que estão meramente cumprindo seu dever executando uma ordem de prisão com a desculpa falaciosa de apenas estar impedindo a própria dominação, a própria humilhação.
É exatamente isso o que Roberto Jefferson nos provou essa semana. Mesmo uma arma legal tem altíssimo potencial lesivo contra autoridades, contra a polícia, sendo manejada por alguém que acredita em violência como resposta às ações institucionais em uma democracia.
Temerário, perigoso e exemplar. Como exemplar deveria ser a punição do político. Deveria. Mas aqui é Brasil, né, amores? Sigamos aguardando as cenas dos próximos capítulos.
Nota: Não ser contra o cidadão ter acesso à compra de armas de maneira legal não é a mesma coisa de ser a favor de a aquisição de armas ser feita por um processo tão descuidado e sem controle que elas se tornam acessíveis para que qualquer maluco com dinheiro possa obtê-las por meios legais.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fonte
CORRÊA, Alessandra. Armas são eficazes para defesa pessoal? Por que este professor americano sustenta que esse discurso é mito? In: BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46191879#:~:text=A%20estimativa%20de%202%2C5,se%20defender%20no%20ano%20anterior.
