Essa é uma pergunta que me persegue: por que nós, professores, adoecemos tanto? Dei de cara com ela novamente essa semana quando em um desses momentos de papo na sala dos professores, estávamos sete colegas e eu conversando quando o assunto de “ajuda psiquiátrica” surgiu.
Dos oito profissionais sentados à mesa, sendo dois iniciantes na carreira, seis já passaram por afastamentos em virtude de sofrimento mental. Ou seja: apenas aquelas que estavam começando no magistério não tinham necessitado de consultar um psiquiatra.
Quando começamos todos a contar quais haviam sido os gatilhos, um professor relatou cansaço excessivo por não mais conseguir dormir: tão cansado ao ponto de causar um acidente de trânsito em que afortunadamente não se feriu; outra falou sobre como foi agredida por um aluno e não encontrou apoio na direção não havendo punição para o agressor; outra falou de como foi falsamente acusada por um aluno de 9 anos de ter batido nele – ainda outros relataram episódios diferentes. O resultado de todos os relatos foi sofrimento intenso, insegurança e desconforto gerando estados mentais como ansiedade, depressão, síndrome do pânico – sofrimento esse que gerou ausências prolongadas no trabalho e o uso das famosas “tarjas pretas” em prazos que variaram de dias, meses, anos – ou até mesmo permanentemente.
E aí me peguei observando meus colegas, pensando em mim mesma, e relembrando uma reunião que tivemos com a prefeitura de Congonhas anos atrás em virtude da elaboração do plano de carreira na qual uma pessoa de alto cargo dentro da administração pública disse que era preciso ter uma “punição” para quem desse atestados em grande número, afinal, professores adoecem demais.
Naquela situação, lembro-me de ter dito que a pessoa fazia a colocação errada. Como quem participava das tomadas de decisão no município, ela deveria perguntar o porquê de professores adoecerem tanto.
Em todo esse contexto, ao buscar informações, descobre-se com facilidade que os índices de adoecimento de professores são altíssimos: 66% relatam sofrerem de ansiedade; mais de 20% sofrerem ou já terem sofrido de depressão. Os professores ainda indicam que suas questões de saúde são causadas ou agravadas pelo trabalho. (Dados anteriores à pandemia).
Todo esse adoecimento deve-se a múltiplos fatores como salas de aula lotadas, falta de material de trabalho, atividades extras não relacionadas ao ensino acrescentadas à sua rotina, dupla jornada causada pela má remuneração – porque professores não estão trabalhando até a exaustão por esporte. Fazemos isso porque necessitamos sobreviver e, para ter um mínimo de dignidade com os baixos salários, executamos jornadas duplas e triplas.
Ou seja, grande parte do sofrimento vem do próprio exercício profissional que se dá em más condições – seja no serviço público, seja no privado.
Enquanto professora, vejo que se trata o profissional da educação como quem não tem família e como quem tem obrigações de prestação de serviço em horas que vão muito além das próprias contratadas e pagas para o trabalho. É uma chuva desnecessária de trabalhos extras com fichas e documentos e serem preenchidos, reuniões que poderiam ser e-mails etc.
Aí, vai-se o fim de semana, vão-se as horas antes ou após as aulas, vai-se o tempo com a família e os amigos – e até mesmo o descanso, necessário para qualquer ser humano, “dança” nessa sinuca louca de trabalho sem fim cheio de atribuições extras que não são pertinentes ao seu trabalho.
Piso salarial? Sonho.
Descanso e sono? Quando dá.
E o país segue precisando crescer e desenvolver intelectualmente sua população causando o adoecimento do profissional responsável por isso.
Não me parece muito inteligente.
E para falar a verdade, viver isso não é nada fácil. Por isso, não é surpresa nenhuma observar que professores adoecem demais enquanto governantes e empregadores batem o chicote: “só uma tarefinha a mais!”
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fonte:
TEIXEIRA, Larissa. 66% dos professores já precisaram se afastar por problemas de saúde. In: Nova Escola. Data: 16/08/2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12302/pesquisa-indica-que-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-devido-a-problemas-de-saude Consultado em: 27/09/2022.
