Demorei um tempo para conseguir falar sobre isso, um evento extremamente traumático que aconteceu comigo na escola onde trabalho. Já há cerca de dois anos tenho problemas sérios de saúde que me causam hemorragias e fortes dores. Vou, inclusive, me submeter a uma nova cirurgia em poucas semanas.
Certo dia estava com muitas dores na escola – já havia tomado as duas medicações indicadas para isso e não resolvia. O desconforto era tão grande que comecei a chorar.
Aí você me pergunta: por que eu ainda estava na escola e não no médico?
É que em Congonhas o professor é punido em seu salário se dá atestados médicos. Se eles chegarem ao número de três em um ano ou de seis em três anos, independentemente do número de dias em que se deve ausentar do trabalho, o professor também perde a progressão de carreira não tendo o aumento devido ao avanço.
Parece absurdo?
E é.
Explico melhor. Em Congonhas, a Cidade dos Profetas, uma das cidades mais ricas da região, que diz valorizar a educação, o salário do professor é composto do salário-base mais 30% de abono. Esses 30% chamados de “incentivo à docência” não são oficialmente salário – mas, especialmente, em tempos de defasagem salarial, são parte importante da renda do professor.
Para se ter uma ideia do cálculo. Em um salário hipotético de R$1.000 (para facilitar o cálculo e o entendimento), haveria um abono de R$300. Observa-se o peso do valor no total recebido.
A questão é que se o professor adoece, ele tem descontados nos 30% de seu salário os dias atestados para tratar da saúde, a partir de seis. Ou seja: se o professor tiver uma conjuntivite (cerca de 7 dias de atestado), já perde nos 30%. Covid, dependendo dos dias dados pelo médico, também.
Essa ação faz com que professores, já tão mal remunerados, trabalhem doentes tentando evitar perdas financeiras. Mesmo com sintomas gripais em tempos de Covid. Mesmo com dores.
Além disso, existe um aumento que se tem com a progressão de carreira: você simplesmente não avança se adoecer e der atestado mais de três vezes em um ano ou seis vezes em três anos.
Considere meu caso: estava com leves sintomas gripais em uma segunda – garganta arranhando, um pouco de tosse e um pouco de falta de ar – esses últimos dois bem comuns para quem tem asma, como eu. Por exigência do protocolo de Minas e por responsabilidade fui ao médico, apesar de não estar me sentindo muito mal. Fui afastada por três dias para então testar, se ainda continuasse com sintomas. Dei entrada em um atestado com CID de asma. Na quinta, retornei para testar e estava com Covid. Novo atestado, com novo CID.
Além disso, tive uma forte crise de dor e hemorragia que me impediu de ir ao trabalho por um dia. Somando os atestados, veja bem: eu não tenho direito à progressão na carreira de acordo com a legislação vigente em Congonhas.
A única opção que tenho para evitar perdas é ir trabalhar mesmo doente.
Foi o caso contado no começo desse texto. Naquele dia eu ainda não havia dado nenhum atestado no ano, não tinha tido Covid ainda, e tinha esperança de progredir na carreira e receber o merecido aumento. Por isso me dirigi ao trabalho mesmo doente, como fazem muitos de meus colegas, porque frente a um salário defasado, muitas vezes, nossa esperança de aumento está na progressão.
E posso dizer a vocês: raras vezes na vida me senti tão humilhada, subjugada e oprimida. Forçada, ao custo da minha saúde, a comparecer ao local de trabalho, sob risco de ser penalizada em meu salário e progressão. Eu chorei de dor. Mas também por estar submetida a essa vexação – é incrível como é fácil submeter profissionais a esse nível de degradação como se não fosse nada. Como se fosse o certo.
Por isso, falei em reunião com o sindicato e falo aqui: o professor de Congonhas é submetido a um instrumento escravocrata e sob ele é obrigado a trabalhar penosamente, doente, se quiser alguma dignidade em seu salário e progredir na carreira.
Eu não progrido mais devido aos três atestados que já dei, conforme expliquei aqui. Ainda vou me submeter a uma cirurgia para corrigir a questão que me causa as dores e a hemorragia. Além de passar por um momento delicado na minha saúde ainda estarei sob a humilhação de ver o que recebo cair e, mais uma vez, não avançarei na carreira porque em Congonhas é assim: professor que adoece é punido.
Inclusive, nenhum outro funcionário público municipal é submetido às mesmas regras degradantes, apenas nós, da educação. Para os outros há muitos mais compreensão com quem adoece: tanto considerando que não perdem em seus ganhos quando dão atestados, quanto possuem uma tolerância muito maior de dias de atestado para progredirem. Provavelmente, nós, da educação, somos os desonestos da rede e precisamos da chibata nas costas para trabalharmos a contento.
Sabem o que já ouvimos em reunião? “Se não houver esse instrumento, professores em Congonhas dão atestado demais!”
Falando assim se coloca em questão a honestidade dos educadores e dos médicos. Fácil agir dessa maneira. Difícil mesmo é tratar professores com dignidade e respeito enquanto se faz a pergunta certa: se os professores adoecem demais em Congonhas, qual o motivo?
Mas para isso seria preciso valorizar de fato a educação – não apenas no gogó.
Nesse momento, nossos planos de carreira estão sendo “atualizados”. Ótima oportunidade para ver se a administração adotará o discurso na prática ou se continuará submetendo a educação a tratamento degradante utilizando um instrumento escravocrata que obriga os professores a comparecem ao trabalho mesmo doentes.
Ou isso, ou perda salarial e na carreira. É ou não é um instrumento escravocrata e degradande?
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
