Na semana da mulher o Fato Real, em parceria com o Jornal Falado Carijós apresenta uma série especial de reportagem com foco em um olhar diferenciado para o universo feminino. A personagem de hoje é Filipa Diaz.

Pode ser difícil definir Filipa Diáz. Dentro de suas multiplicidades, rotulá-la parece simples demais. Ela mesma não se limita. “ Eu sou uma pessoa em travessia. Sou uma pessoa hoje em transformação. Um ser humano antes de tudo, de carne e osso, com emoções. Sou uma pessoa simples e complexa. Eu me defino hoje como uma pessoa trans e travesti, que está construindo a ideia de que não se nasce algo, se torna alguma coisa. E que luta pelo direito de ousar ser e se comportar da forma que quiser”, explica.
Aos 29 anos, Filipa (que nasceu Filipe) e se transformou ao longo da vida, é terapeuta, artista, artesã e umbandista, mas também é vida. Algo que pegou da mãe, assim como a força: “Meus exemplos femininos começam no ventre. Minha mãe é minha maior inspiração, ela não pôde estudar quando criança mas isso não a impediu de trabalhar e criar três filhos sozinho. Ela cativante, artística que canta e encanta, que para ser abalada a vida tem que dar muita porrada, é muito difícil para que ela abaixe a cabeça, na verdade, nunca a vi de cabeça baixa”, conta.

Trans
Segundo pesquisa realizada em 2021 pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), existem 4 milhões de pessoas transexuais no Brasil, dentre elas Filipa, que carrega consigo os medos de ser uma mulher trans no país que mais mata LGBTs no mundo e que a expectativa de vida desta parcela da população é de 35 anos (metade da expectativa nacional). Mas Filipa não deixa o receio dirigir a sua vida e em um mundo de ódio aos corpos femininos, ela é esperança, carrega a força de saber quem é e a coragem de não se negar. “Ter medo não só pela violência, mas de abandonar quem eu era, até entender que você não vai abandonar, vai acrescentar. Hoje, construindo o meu sagrado feminino, eu penso na minha trajetória e percebo que é uma linda trajetória. E que a partir dela eu posso ser tudo o que eu desejo.”

Diáz tem esperança de que o mundo seja um lugar de acolhimento, aceitação e de afeto. “Que as pessoas tenham liberdade de ser quem elas são, sem a necessidade de se justificar. Que ele seja acolhedor, afetuoso. Mas ao mesmo tempo, quando penso sobre isso, concluo que o mundo já é assim, o que precisa mudar são as pessoas.”
Filipa nos ensina que ser mulher está muito além de uma questão de gênero, é sobre se reinventar, resistir e se permitir.
Produção: Mariana Marques.
