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Uma visita sincera

2 de março de 2022
in Você Repórter
Uma visita sincera
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Nessa semana, recebi a visita de um amiguinho de 4 anos.

Como toda criança saudável e esperta, é bem levado. Talvez um pouco mais levado que os demais, lembrando muito meu filho Achilles na mesma idade, que exigia paciência e atenção de todos ao redor.

E assim como meu filho, meu amiguinho é um falador de vocabulário incrível para tão pouca idade.

Logo ao chegar à minha casa olhou ao redor e sem um pingo de constrangimento, exclamou: “Sua casa é pequena!” Realmente, uma observação sagaz para quem é tão pequeninho. E não há mesmo como discordar: a casa é realmente mínima.

Porém, o mais engraçado foi que as observações não pararam por aí.

Tenho na sala a realização de um sonho de criança: minha própria biblioteca. Ela é feita de tijolinhos aparentes e ocupa duas paredes da minha sala. São mais de 300 livros ajuntados com cuidado ao longo de uma vida. Estão lá, colocados de forma meio exibida, visível a qualquer pessoa que entre na minha casa.

Eles não passariam despercebidos aos olhos do meu visitante que é um aluninho muito aplicado e que gosta demais de professoras e livros. Mas o que me chamou a atenção foi a maneira como ele colocou sua observação:

“Que tanto de livros! Você é rica!”

Devo dizer que concordo muito com esse conceito abstrato de riqueza – o conhecimento, representado pelos livros, é algo admirável.

Confesso que tenho saudades de uma época em que ter boas informações, conhecimento, cultura era considerado algo impressionante. Lembro-me de um senhor, o Sidney Martins, cujo profundo entendimento sobre tudo e qualquer coisa encantava a todos com quem ele conversava. Era um grande amigo, mesmo que eu tivesse 15 anos e ele mais de 70.

Assim a observação do meu amiguinho não deixou de me inquietar um pouco. Fiquei pensando como até um brasileirinho tão pequeno consegue perceber com clareza cristalina que em nosso país, para nossa tristeza, livros permanecem sendo “coisa de gente rica”. São exóticos, estranhos quando vistos em grande número em uma casa.  Em nosso vizinho Chile, em contrapartida, eles fazem parte de cestas básicas distribuídas em calamidades, como o isolamento social causado pela Covid-19.

Mas esse estranhamento se explica: nossos livros são sobretaxados, caros mesmo, o que os retira do alcance de muitos de nós. Junto ao preço temos uma educação falha, que se faz cada vez mais vazia de filosofia, artes, literatura, história – e sem elas, mais vazia de entendimento de mundo e, porque não dizer, de humanidade.

É algo que nos cabe mudar com a transformação do paradigma político sobre a educação de forma a gerar uma nova perspectiva pessoal de valorização dos livros, do conhecimento e da cultura para nos tornarmos ricos.

Mas ricos não só de livros, e sim, de tudo o que eles contêm. Algo que até meu amiguinho de 4 anos já percebeu.

Profa. Érica Araújo Castro
Redes sociais: @ProfaEricaCL

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