No outro dia, estava dando aula em uma escola pública para o oitavo ano do ensino fundamental. Os alunos haviam recebido um material com textos em inglês sobre a vacina e sobre a situação escolar na pandemia e deveriam acompanhar as explicações marcando palavras, anotando significados, fazendo perguntas. Nada de novo em estudo de texto em outra língua.
O comportamento de um dos meninos estava me incomodando demais: estava desatento, olhando sempre para a porta, sem fazer anotações. A criança tem cerca de 13 anos, negro, roupa de frio bem surrada – e os olhos procurando sempre olhar para fora da sala, pela porta.
Insisti várias vezes ao longo da aula para que acompanhasse e seguisse as instruções – ele fingia fazer e depois voltava o olhar para fora de novo. Da última vez, quase no horário do recreio, quando falei novamente com ele, me respondeu de maneira grosseira, gritando.
Isso eu não admito. Imediatamente já mandei abaixar o tom de voz – no meio da discussão o sinal do recreio bate. Dispenso todos os alunos menos ele. Professor sabe quando tem algo de errado – ao mesmo tempo, certas coisas não podem simplesmente serem ignoradas.
Quando estamos sozinhos pergunto de maneira direta e séria:
“Qual o direito que você tem de falar com qualquer pessoa assim, ainda mais comigo, que sou sua professora?”
“É porque os meninos ficam mexendo comigo toda hora” – e desaba a chorar das lágrimas escorrerem sem parar.
“Isso não muda o fato de que você não pode me responder assim – porém, isso que você falou também não pode acontecer. Quem mexe com você?”
Ele me responde com evasivas, balbuciando coisas em meio a soluços, que não consigo entender. Explico a ele que a escola é lugar de acolhimento e que vamos cuidar para que isso não aconteça mais e vamos cuidar dele. Porém a maneira como ele fala coisas desconexas, faz com que eu observe que o problema que o está incomodando de verdade não é esse. É algo que ele não se sentiu confortável para dizer.
Volto no assunto da má resposta como uma forma de dar um tempo para a questão assentar. Pergunto o que ele deve fazer, já que concorda que não pode me responder como respondeu. Ele se desculpa.
Volto ao problema oculto. Insisto mais um pouco com gentileza. Finalmente, ele diz:
“É que os meninos mexem comigo…” – dá uma pausa – “ E o próximo horário é educação física e eu não tenho tênis para fazer”. E deságua a chorar mais um pouquinho.
Professores sabem o quanto crianças dessa idade são APAIXONADAS por educação física.
Ele está de chinelos.
É meus amigos. Mais que tudo, o que dói mesmo é a exclusão.
Nota:
1) O professor de educação física, que, corretamente, não permite que alunos participem das aulas de chinelos porque os mesmos podem se machucar, tenta sempre providenciar doações de tênis para os alunos que não possuem de forma a incluir a todos. Não é responsabilidade dele, mas mesmo assim ele o faz. Porém estamos apenas no começo do ano e nem todas as questões semelhantes foram ainda identificadas.
2) Quando publiquei esse acontecido no meu Twitter e Instagram ( @ProfaEricaCL ), houve uma movimentação de pessoas desejando contribuir. Fico feliz em informar que o rapazinho ganhou tênis novos e material escolar para acompanhar as aulas – e a “fessôra” aqui fica como? Felizona e não vê a hora de entregar tudo.
Profa. Érica Araújo Castro
Redes sociais: @ProfaEricaCL
