Imagine a situação em que um residente de Lafaiete, pagante de impostos, tivesse uma dor de ouvido que começasse numa quinta-feira. Na sexta, o cidadão levanta-se bem cedo e vai ao posto de seu bairro – mas apenas consegue agendar consulta para a segunda, mesmo que esteja com dor e com o ouvido vazando pus.
Ele evita o Pronto Socorro tanto em virtude da Covid-19 quanto por saber que casos assim devem ser atendidos nas UBSs dos bairros, evitando que o PS seja sobrecarregado.
Após um fim de semana inteiro de desconforto e sem dormir direito o cidadão dirige-se ao posto para ser finalmente consultado por um médico/a.
Chegando lá, a médica, que mal lhe examina, apenas lhe responde que não receitará nada, não dará nenhuma medicação – e que o ouvido deve ser examinado por um otorrinolaringologista.
Porém, um detalhe: no próprio posto o cidadão é informado de que o SUS está sem tal especialista – enquanto seu ouvido responde latejando e cuspindo secreção purulenta. E aqui, a pessoa se vê em delicada situação, com algo relativamente simples – uma dor de ouvido, que pode ser uma infecção – mas que não acha atendimento no sistema público.
A parte mais importante desse texto vem agora: o relato aqui não se trata de um exercício de imaginação como o verbo inicial poderia fazer supor.
Trata-se de mais um dia corriqueiro de atendimento à saúde no sistema público de Lafaiete. E aqui deixo um aparte: não se trata de uma generalização. Certamente, há médicos extremamente competentes espalhados pelas Unidades Básicas de Saúde de Lafaiete, dispostos a darem seu melhor no atendimento ao lafaietense.
Entretanto levanto algumas perguntas importantes, agora, sim, convidando à imaginação, considerando-se que o tal cidadão não tem condições de arcar com uma consulta particular e não tem plano de saúde. É correto alguém ser atendido por um médico com dores há vários dias e não receber qualquer esperança de tratamento – nem por remédio, nem por consulta imediata com especialista? Nenhuma solução? Nada?
Outra pergunta importante: um clínico geral não tem qualificação para atender e medicar uma infecção de ouvido? Quantos dias mais esse lafaietense terá que sofrer de dor, com noites mal dormidas e sem condições de trabalhar, até obter o tratamento que lhe é de direito via SUS?
Na verdade, fico aqui, na minha ignorância, me perguntando se o cidadão lafaietense possui, de fato, direitos em relação aos cuidados com sua saúde e quais os caminhos para que alguém que dependa do SUS pode percorrer para obtê-los. Não para o tratamento de algo complexo como um câncer ou falência dos rins. Mas para algo tão corriqueiro quanto uma dor persistente de ouvido.
Enquanto aqui escrevo e você lê – o homem segue com dores tentando encontrar uma solução.
Assustador.
Profa. Érica Araújo Castro
@ProfaEricaCL
