No dia 21/12/2020, vimos estarrecidos quando um homem no micro-ônibus da empresa onde trabalha atingiu repetidamente a casa da ex-companheira – e no caminho, postes e carros estacionados.
Seu objetivo era matar-se depois de matá-la.
A violência explícita do ato deixou a todos boquiabertos – vídeos que circulam na internet mostram uma cena de filme, veículo usado como arma.
Porém, ações assim devem ser vistas para além do óbvio pelo seu poder de provocar uma discussão necessária sobre feminicídio e a violência de gênero que atinge todas as mulheres e é historicamente construída.
Historicamente, sim. Sob uma análise da legislação, a cidadania plena feminina apenas foi alcançada na constituição de 1988. Até o Estatuto da Mulher Casada (Lei 4121/1962) a mulher tinha que ter autorização do marido para tudo – até para abrir conta em banco, trabalhar, viajar.
Ou seja, o sentido de que o masculino deve predominar sobre o feminino é entranhado em nossa sociedade e ainda permeia o imaginário das pessoas em muitos aspectos. Dados do IPEA (2019) demonstram que, ainda hoje, 58,8% de nós acreditam que se a mulher soubesse se comportar haveria menos estupros e 65,1% acreditam que a mulher que permanece com um agressor é porque gosta de apanhar.
Se falarmos sobre mulheres trans e travestis, os números escancaram: 49% da violência sofrida por elas é dentro de casa perpetrada por homens em 63% dos casos e homens e mulheres em 3%. (Dados do SINAN, 2014).
Não é difícil perceber que mulheres de todos os tipos e origens enfrentam o mesmo campo de batalha que se encontra no lar – mas, mais profundamente, no campo dos afetos.
Qualquer comportamento que fira o socialmente aceito, que saia do papel submisso do feminino ao masculino ou a transgeneridade e a travestilidade, recebem como reação a violência física e psicológica.
Para derrubar tais estruturas sobre as quais nossa sociedade se assenta é necessário olhar a fundo e pensar mais criticamente nossas ações enquanto agrupamento.
Primeiramente, parando de caracterizar esse homem agressor como “doente”, “exceção” ou “o outro” numa tentativa de afastá-lo de nós, retirando-o de seu lugar real de homem comum. O agressor é um homem como qualquer outro, que vive em sociedade, trabalha, vai à igreja, convive com sua família, sorri e acena na rua. É isso que as estatísticas mostram.
Esse homem comum, ao ver-se abandonado pela parceira, ao ser desobedecido pela mulher que considera sua propriedade, entende que elas estão atingindo sua masculinidade em cheio, por isso precisam ser agredidas e mortas. É seu direito fazê-lo porque assim ele foi ensinado, na maioria das vezes indiretamente, mas de maneira constante pelas relações sociais e como elas se perpetuam.
E como mudar o componente social que dá o poder da agressão e do controle sobre os corpos femininos pelos homens?
Primeiramente, por estratégias educacionais nas escolas, inclusive, respaldadas pela Lei Maria da Penha.
Mas ainda é preciso mais. É preciso que cada um de nós comece a questionar ações de hierarquia e violência de homens sobre mulheres, por menores que sejam.
Se seu amigo disse que “se a namorada não ficar com ele, não fica com mais ninguém” – questione. Se pega no braço da “ficante” à força, questione. Se alguém diz que “só respeita mulher que se dá ao respeito”, questione.
E se uma mulher sofre violência, entenda que tal problema atinge a todos pelo fato de que as interações que geraram aquela(s) agressão(ões) são fruto de uma construção histórica e ainda muito presente na estrutura de nossa sociedade. Por isso a violência de gênero deve ser combatida por todos: é um problema social. Existem formas de denunciar, mesmo que anonimamente.
É importante lembrar que o caso de Congonhas foi uma exceção pelo nível extremo de violência – mas o resultado desejado por aquele agressor não é: mulheres são mortas por homens pelo fato de serem mulheres todos os dias no Brasil. Isso tem que mudar por meio da mudança da mentalidade que permite e incentiva esse tipo de ação.
É dever de todos nós construir uma sociedade mais justa e mais segura para todas as mulheres – para todos nós.
Para situações de violência: ligue 190.
Para escuta ativa, denúncias anônimas e aconselhamento: ligue 180.
Link para o vídeo no canal Profa. Érica: https://www.youtube.com/watch?v=Bon8T8TsOi8
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