Desde cedo fui uma grande admiradora do saber. O mundo ao meu redor, com todas as suas peculiaridades sempre me pareceu fascinante e provocador de perguntas que eu gostaria de ver respondidas.
Eu sou da última geração da Barsa, uma enciclopédia renovada anualmente com todo os tipos imagináveis de informações, e da biblioteca, enquanto local único para pesquisas. Ter uma Barsa era caríssimo. Eu só conhecia uma família que tinha e exigia uma caminhada de uns 15 minutos para chegar na casa do Magal, da Elina e da Elisa.
O Magal, na verdade, Sebastião Magalhães, mais conhecido pelo sobrenome ou por seu encurtamento, era um tipo de vovô de todo mundo, que adorava crianças e estava sempre cercado delas porque tinha muitas balas e ideias legais – incrível pensar que, hoje em dia, essa seria, facilmente, a descrição de um pedófilo. Mas o Magal, não. Ele tinha mesmo nascido para essa tarefa superimportante de ser vovô de todo mundo.
Eu tive três avós emprestados, que também eram avós de muitas outras crianças da vizinhança: além do Magal ainda tinha a Don’Ana, que eu chamava de Vó Ana, e a D. Vivina. Vó Ana fazia doces maravilhosos e D. Vivina sempre me mandava manga ubá, minha favorita, porque ela tinha a riqueza de dois pés no seu quintal. Isso lá no passado, década de 80, no bairro Santa Mônica, em Belo Horizonte.
Já o Magal inventava coisas. Para vocês terem uma ideia, um dia, minha mãe, eu e minha irmã fomos à casa da família. Havia um lote na frente onde o Magalhães plantava uma horta. Tinha uns canteiros bonitos… mas qual não foi nossa surpresa ao chegar lá e encontrar uma plantação de algodão doce.
Esse era o tipo de lembranças que Magal deixou na gente. Junto com a Barsa, claro. Eram intermináveis as pesquisas copiadas no rascunho e depois passadas no papal almaço e entregues para a professora com uma capa bonita e desenhada.
Talvez a dificuldade em conseguir as informações tenha despertado em mim esse amor desmedido por saber – e uma tristeza: há um limite para o conhecimento e o aprendizado, o tempo da vida. E nenhuma vida há que dure o tempo necessário para se obter a resposta a todas as perguntas.
Imagino que por isso, ao frequentar as redes sociais, especialmente o Twitter, algumas figuras tenham me encantado tanto ultimamente. Umas carinhas quase sempre jovens. Vários, pouco mais que meninos e meninas, negros, brancos, nordestinos, sudestinos – uma variedade incrível de gente. E a que se dedicam? Ao saber. À Ciência.
Estudam e divulgam conhecimentos sobre coisas tão impressionantes como insetos, fungos, cobras, biomas, arqueologia egípcia e o universo. Pelo absoluto prazer de saber e compartilhar o que sabe. Têm um trabalho absurdo de produzir conteúdo acessível, coletar espécimes, tirar fotos, compartilhar informações. Alguns estão apenas na graduação e outros já profissionais atuantes publicando artigos e livros.
E eu fico aqui, fã desse afã, dessa necessidade primária de saber e dividir o que sabe. Pego-me, por vezes emocionada em vê-los e vê-las falarem de assuntos que me impressionam tanto e despertam no meu coração o espanto do saber. Porque, para mim, o saber sempre será espantoso.
Por exemplo, pessoas como @Michelotto8legs, @AracnoCerrado e @AracnoGian, que olham para uma foto e dizem qual aranha é aquela, como lidar com ela e se é (ou não) uma das poucas de importância médica que temos por aqui. Espantoso!
Também sigo o @ELGrandSapon, que divulga suas fotos de campo com tantas coisas lindas que um olhar de um biólogo identifica na mata. A maravilhosa @ElfaDosInsetos falando de borboletas e mariposas como velhas conhecidas. Ainda tem o @MateusDosFungos que fala, exatamente, disso: fungos – com fotos, descrições; e o @PapoDeCobra que além de divulgador, ainda presta um serviço de utilidade quando identifica serpentes como a Cobra do Capim que meu amigo Pedro encontrou na horta (sem veneno, mas devidamente recolhida pelos bombeiros e encaminhada com segurança). Absolutamente, espantoso!
E a Márcia Jamille (@MJamille) que fala de Egito, civilização que amo e que não poderia me encantar mais com sua clareza e objetividade? Fora que somos Team Taweret, né? E ainda tem a Yanna Martins (@martins_Yanna) falando sobre astronomia – galáxias, energia, supernovas. O adjetivo? Espantoso, claro!
Por isso, esse texto, uma ode em prosa, tem o objetivo único de agradecimento por essas pequenas (ou grandes) pílulas do saber, que dão a vocês um trabalho dos diabos e geram todo tipo de comentário inconveniente na internet – mas também muita apreciação merecida. Vocês, que me fazem retomar aquela curiosidade infantil e o fascínio pelo mundo que me cerca com sua atuação, despertando em mim esperança de que a ciência ocupe em mentes e corações o desconfortável e maravilhoso papel de caminho para o conhecimento, assim como a fé de que há futuro.
Enquanto jovens estiverem dispostos a dispenderem tempo útil adquirindo e compartilhando conhecimento por trabalho, sim, mas também por amor ao saber e ao que lhe cerca, há de haver futuro.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
