O Carnaval é uma festa que admiro e reconheço como a potência que é: herança dos sambas nos quintais das tias ancestrais, os ritmos fruto dos toques de atabaques de terreiros afrorreligiosos, fonte de renda para inúmeras famílias e uma das maiores tradições culturais de nosso país. Apropriado pelos governos ditatoriais que não deixaram de ver o potencial financeiro da festa catártica, foi organizado em formato de parada militar em cidades como Rio e São Paulo.
Essa organização dos desfiles permanece até hoje e se tornou a marca registrada das famosas escolas de samba que, em seu histórico, passam também por supostas relações com o Jogo do Bicho, a mais popular das contravenções.
Mas a verdade é que, mesmo com as intervenções com tentativas de embranquecimento para maior palatabilidade dessa grande festa com controle interno ou externo sobre a temática desenvolvida pelas escolas, sobre a escolha de passistas e destaques importantes como as rainhas de bateria, o Carnaval permanece como uma gigantesca festa popular, que gira rios de dinheiro e para muitas famílias é trabalho e investimento de suor para fazer nesses quatro dias quantia significativa para reforçar o orçamento.
Carnaval é maravilha. Esse ano fiquei absolutamente mesmerizada por um carro da Vila Isabel representando São Jorge a cavalo. Uma escultura gigantesca, vazada, de material que jogava transparência com brilhos brancos mostrando o santo combatendo o dragão. Absoluto material de sonho!
Seja nos desfiles grandiloquentes ou nos blocos populares que se espalham por todo o território nacional, o Carnaval continua irreverente, popular, negro e desafiador do status quo.
Desde os festejos para Sekhmet, no Egito, passando pelos festivais em honra a Baco na Roma, festas populares com muita bebida e inversão da ordem social perpassam a história sempre com a ideia de propiciar um movimento de catarse para a população que, após os festejos, retorna para a sua vida corriqueira.
Obviamente, desnecessário dizer que, apesar de suas fortes raízes ligadas às religiões de origem afro ainda perceptíveis por todos os lados, mas especialmente na percussão musicada que são os sambas enredos e as marchinhas, o Carnaval não é uma festa religiosa. Destaca, não raro, a fé com Santos e Orixás – mas não tem por fim a religião. Também não tem por fim a política – mas não deixa de ser político muitas vezes tratando de temas relevantes para o país e o mundo.
Não sendo, portanto, religioso, chama a atenção a postura de alguns religiosos que teimam em apontar com seus dedos mais que santos carros alegóricos e fantasias como “demoníacos”, demonstrando, em uma análise rasa, desconhecimento de enredos e histórias. Outros religiosos, profundamente envolvidos com suas denominações, passam o feriado em retiros ou apenas curtindo o tempo livre sem se importar com a folia que não lhes diz respeito – postura natural de quem entende que sua régua não vale para o mundo externo, apenas para o interno.
Enquanto pessoa religiosa, adepta e praticante de uma fé, tendo passado em minhas primeiras décadas pelas fileiras evangélicas, sempre me pergunto o que quer dizer essa prática que olha para fora de si, sempre com os dedos apontados para o outro – que não está minimamente interessado no que tais pessoas pensam, dizem ou creem.
Pergunto-me mais: quanta cegueira é necessária para crer em deuses cuja maior preocupação e desgosto são as festas populares e não os desastres naturais, a violência, o extermínio de povos nativos e tradicionais dentre outras mazelas que nos afligem ano a ano?
Enfim, sigo “curtindo” meu Carnaval pela TV, em pequenos churrasquinhos com amigos tomando meu refrigerante, ou aplaudindo sentada os bloquinhos que passam com foliões animados fazendo bagunça acreditando cada vez mais que a diversão, o momento catártico, o suor e as risadas são, sim, sagrados, já que dão a oportunidade de esquecer suas dores pessoais, nem que seja pelos três dias de Carnaval.
Feliz é o povo que tem um Carnaval para chamar de seu. E viva a festa!
(Ou viva o feriado sob as cobertas assistindo série. Me fala se isso é ou não é absoluta democracia?)
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Referência:
Carro alegórico “Festas de São Jorge”, da G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DAID1IKHH2M
