Não devemos nos deixar enganar pelas imagens de esqualidez dos indígenas Yanomami. É uma aparência que deve nos fazer pensar em uma única coisa: nas consequências claras e nefastas que a interferência colonizadora causa sobre populações tradicionais ao longo de todo o território nacional e como devemos solucionar isso.
Mas jamais nos deve fazer pensar que eles não sabem cuidar de si mesmos – que são ineptos, animalescos ou “bons selvagens” que necessitam do salvamento do excelente mundo civilizado.
Não. Seus ossos à mostra, suas crianças pálidas e quase carecas, seus idosos morrendo como frágeis borboletas ao menor golpe não significam incompetência em viver no séc. XXI.
Antes, mostram a NOSSA incompetência em dar espaço para povos que existem, vivem, progridem, são felizes, têm dificuldades – e as superam, desde antes de o Brasil sequer ser cogitado. Desde antes de qualquer colonizador pisar nas Américas.
Desde esse tempo do qual não há registro ou história os Yanomami e outros povos originários caçam, pescam, fazem suas casas, parem e criam suas filhas e filhos. Cantam, dançam, curam-se e morrem enterrando seus mortos de acordo com suas crenças. Alimentam-se bem. Vivem o que os Guarany M’bya chamam de “Nhandereko”, o seu bem-viver, conforme aprendi com o Xamoi Pedro e Mirim Ju residentes na aldeia Tekoa Itakupe, da Terra Indígena Jaraguá.
Precisamos assumir nossas responsabilidades quando vemos o povo esquálido que mal tem forças para chegar aos helicópteros que trazem ajuda.
Nossas, sim. Mesmo de quem jamais pisou na Amazônia uma vez que é nossa sociedade como um todo que contribui para a degradação de sistemas naturais e com a extinção e morte de animais, plantas, pessoas, culturas.
Nossa sociedade, ao desrespeitar modos de vidas tradicionais, transforma ribeirinhos em desmatadores, garimpeiros, vaqueiros sendo eles mesmos explorados pelos donos do dinheiro enquanto levam o terror para as aldeias cometendo crimes dos mais execráveis como estupro de mulheres e crianças e assassinatos. Rios e florestas são destruídos no processo impondo formas de viver predatórias no lugar das tradições. Isso ou a morte.
“Mas, ah”, poderiam pensar alguns, “o que ganhamos ao deixar a floresta em pé para pouquíssimas pessoas viverem dela?”
Eu poderia argumentar que não precisaríamos ganhar nada, que todo e qualquer ser humano possui direito ao seu modo de vida; que cada pessoa, planta ou bicho possuem valor em suas existências. Um valor que está para além do monetário. Poderia ainda argumentar que as terras indígenas não são dadas de graça – elas foram pagas e muito caro com sangue e sofrimento ao longo da colonização. Hoje a demarcação e o respeito a esses povos é reparação, não caridade. É devolver-lhes seu direito de viverem como desejam e sabem.
Mas não vou argumentar assim porque quem pensa dessa maneira normalmente não está apto ou aberto a compreender isso e ainda olha para as comunidades tradicionais como se elas precisassem, de alguma maneira, serem salvas. É uma relação de cima para baixo, nós, detentores de conhecimentos e eles, meros selvagens.
Não são poucos de nós que pensam que a civilização e a integração desses povos ao modo de vida ocidental é uma prioridade, sempre em ares de divindades salvadoras. Tais esquecem-se que a tecnologia é uma vantagem para NOSSO modo de vida – não para o deles. Que ao passo que um indígena aldeado desconhece certas informações de nossa cultura – nós também desconhecemos saberes importantes cultivados por eles e que nos fazem tremenda falta em termos de senso de coletividade, família, ancestralidade, relação com o meio natural.
“Ah, mas eles necessitam de vacinas e atendimento médico!”. Quem pensa assim já cogitou a possibilidade de eles precisarem de determinadas vacinas porque em primeiríssimo lugar NÓS levamos as doenças?
Um forte argumento para nós, “civilizados” que falhamos em entender a relação de nossa sociedade com os povos tradicionais, fala sobre chuvas regulares e temperaturas dentro do espectro da normalidade garantidas pela preservação dos ecossistemas. Ou seja: nossa vida também depende de mantermos as florestas de pé em uma relação não predatória com o meio ambiente – e o egoísmo, que move tão bem nossa sociedade, pode fazer com que alguns, finalmente, compreendam a importância dos Yanomami e dos demais povos originários e tradicionais.
Além do mais, já é mais do que hora de começarem-se as reparações. Podem acontecer trocas entre nós e eles? Sim, desde que sejam de igual para igual, de aprendizado mútuo, com nossa civilização revestindo-se da humildade em reconhecer que se hoje estamos degradados, se muitos de nós têm fome enquanto outros têm em excesso, se poucos acessam segurança para viver enquanto muitos padecem é porque esquecemos coisas básicas do bem-viver que as comunidades tradicionais podem nos ensinar.
O problema é que nos falta modéstia para isso, já que nos sentamos orgulhosamente sobre nossa própria capacidade de nos autodestruirmos e ao nosso planeta.
Por isso, é importante que depois de remediados os problemas que nós mesmos causamos aos Yanomami, que os deixemos em paz. Eles não precisam de nós. Eles são autossuficientes. Nós é que precisamos desesperadamente deles e de sua capacidade de viver na imensidão florestal mantendo-a de pé e preservada.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
