Ao avaliar, em sessão realizada pela câmara de Conselheiro Lafaiete na manhã desta segunda-feira, a falta de execução efetiva das leis aprovadas pelo Legislativo local, o vereador João Paulo Resende fez uma correlação, no mínimo, inadequada. Citando expressão que atribuiu ao colega e presidente da Casa, vereador Vado Silva , João Paulo disse que seria o mesmo que “fazer careta pra cego”.
Acreditamos, sinceramente, que a expressão replicada por João Paulo, com autoria atribuída a Vado Silva, embora seja uma colocação profundamente infeliz, não tenha tido a intenção direta de ridicularizar pessoas com deficiência visual. Até porque é público que o vereador tem, na própria família, uma pessoa com deficiência a quem, por diversas vezes, dirigiu sinceras manifestações de amor e respeito.
Ainda assim, causou-nos espanto que a declaração descabida tenha passado despercebida por todos os vereadores justamente numa sessão em que a palavra empatia (cujo significado é se importar com os outros) foi citada em inúmeros pronunciamentos. Ninguém se indignou, nem mesmo se incomodou com a citação. Tão-pouco parlamentares que falam tanto em inclusão e acessibilidade e cremos que se preocupem de fato em tornar menos árduo o cotidiano dos deficientes numa cidade como a nossa, que insiste em continuar na contramão dos novos recursos de mobilidade, mantendo passeios com degraus e ressaltos onde deveriam existir rampas e que carece de pisos podotáteis na maioria dos espaços públicos e comerciais.
Apenas gostaríamos de pedir aos representantes do povo que tomem, sempre que possível, cuidado com os discursos que proferem publicamente, ainda que não consigam exercer de fato a empatia que pregam em plenário. Saibam os senhores vereadores que os cegos, bem como todos os cidadãos cujas deficiências não são severas a ponto de incapacitá-los, têm vida autônoma e trabalham para se manter. E (olhem só!) eles também votam e podem ser votados. Pior do que fazer careta pra cegos, porque não podemos vê-las, é insistir em nos tornar invisíveis pela ausência de políticas públicas que favoreçam nossa capacidade e sepultem o capacitismo que nos diminui e oprime.
Aimar Souza
Jornalista/cego/que não tem medo de careta