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Uma mulher de fé que pede por templos fechados

Vivemos momentos complicados em que brasileiros morrem aos milhares em virtude de uma doença que já tem vacina e cuja prevenção passa por uso de máscara, hábitos de higiene, distanciamento social. Em situações assim locais de culto aparecem como centros de refrigério e proteção.

Eu mesma sou uma mulher de fé e procuro no meu terreiro toda a força que preciso, meu espaço de devoção, meu lugarzinho de oração.

Por isso, posso dizer com tranquilidade que compreendo que muita gente quer estar presencialmente com seus irmãos de fé: porque eu também quero. Eu também sou uma pessoa de fé que tem com seus sacerdotes uma relação de confiança e recebo deles amparo. Por isso entendo quando o fiel pede para estar na presença física do Pastor/ Padre/Lama/etc.

Porém, a minha fé me ensina algo importantíssimo: eu tenho responsabilidades. E para que se tenham responsabilidades é necessário que se entenda em que situação estamos vivendo no momento.

Hoje, temos países no mundo todo combatendo a covid-19 com lockdowns, distanciamento, máscaras e suporte social governamental (que vai desde o empresário ao autônomo, passando pelo desempregado). E com vacina. Nos países em que o imunizante já está sendo aplicado em parcelas grandes da população, há queda em números de casos graves e internações – mesmo assim as medidas suplementares de higiene e máscara não são dispensadas: e o fechamento de atividades é usado parcial ou totalmente, a depender dos números. Vimos países como Suécia e Inglaterra, que relutaram em fazer isso em nome da economia, assumindo o erro e tendo seus dirigentes desculpando-se com a população pelas mortes que poderiam ter sido evitadas se tivessem agido segundo orientações científicas mais cedo.

No Brasil, tivemos um governo federal, à princípio, assumindo as rédeas do combate à covid – e depois, perdendo-se numa politização sem fim da doença, deixando a ciência e seus achados para segundo, terceiro planos. O resultado é que, atualmente, o Brasil, com apenas 3% da população mundial registra cerca de 30% das mortes por covid-19 do mundo (Dados da BBC). São cerca de 3 mil brasileiros morrendo diariamente tendo na retaguarda desse número ameaças de colapso hospitalar e funerário.

E é exatamente aí que entra a responsabilidade da mulher de fé. Da filha do Deus onipresente, que está em todos os lugares, e onisciente, que tudo sabe. Do Todo-Poderoso, que tudo pode.

É a responsabilidade de filha desse Deus que me diz que, apesar da minha vontade de estar junto, não é o momento – porque as aglomerações devem ser evitadas a todo custo e um assintomático em meio a um culto de qualquer fé pode, inadvertidamente, contaminar um. Ou vários.

E eu não quero nenhum de meus irmãos ou seus familiares aumentando a estatística de mortos, gravemente doentes ou das pessoas que lutam com sequelas.

Reuniões online têm acontecido nos grupos de estudos religiosos que faço parte desde o começo da pandemia. As Testemunhas de Jeová também têm se reunido de maneira remota. O Papa tem rezado missas com a presença de poucos auxiliares. O Dalai Lama tem feito transmissões para confortar os budistas.

Ou seja, há maneiras de manter a nossa fé em momentos de pico da pandemia fazendo o contato, as instruções e orações de maneira remota – enquanto aguardamos que as autoridades sanitárias novamente liberem os cultos presenciais de qualquer alinhamento.

Lembrando que, quando se fala de fechar cultos presenciais temporariamente, não é algo contra os Evangélicos, como muitos querem fazer crer. Não. São fechados os cultos presenciais evangélicos, católicos, afro-religiosos, budistas, judeus, islâmicos – todos – apenas solicitando que se ore em casa por enquanto, não para sempre.

Incentivo todos que são pessoas de fé a fazerem o mesmo.

Eu não poderia encarar a Espiritualidade Maior mostrando para mim que devido ao meu egoísmo e negacionismo da realidade, mais pessoas se contaminaram em uma rede de proliferação do vírus porque eu insisti em ir ao culto no pico da pandemia.

Se eu puder evitar que apenas um se contamine e sofra consequências dessa doença mantendo templos de minha fé fechados pelo período limitado necessário, terá valido a pena.

E o que eu pergunto a você, pessoa de fé, sacerdote ou adepto, é: se apenas um se contaminou partindo de sua igreja/templo/terreiro terá valido a pena?

(Profa. Érica)
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