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Rir é um ato de resistência

O humorista, dramaturgo e filantropo Paulo Gustavo lutou como um herói contra uma doença misteriosa e letal que o atual desgoverno tratou com uma negligência gigantesca que evidencia o desrespeito à vida do povo brasileiro. Desde que começou a ser pressionado para a aquisição de vacinas, o genocida desconsiderou a importância da vacinação. Ignorou a primeira oferta da Pfizer em agosto de 2020 e recusou o fornecimento de 70 milhões de vacinas. A campanha de imunização contra Covid-19 ainda caminha a passos lentos devido à escassez de doses.

Nos diálogos que mantenho com os negacionistas idiotizados por ideologias da extrema-direita, tenho observado que a percepção da gravidade sobre a pandemia foi realmente ampliada com a morte precoce de Paulo Gustavo, um ator irreverente, histriônico, energético, ligado nos 220 volts.  Gay assumido e um crítico da homofobia institucionalizada, Paulo Gustavo tornou-se uma referência transgressora para a história recente do humor brasileiro. Ele subverteu a ordem conservadora dos programas televisivos. Os gays eram e ainda são tratados como chacota em humorísticos que são transmitidos em rede nacional e que tratam a homossexualidade como uma aberração, algo jocoso capaz de arrancar risadas constrangedoras que desumanizam e demonizam a população LGBTI.

Paulo Gustavo inverteu o jogo, fez uma inversão pela arte. Ele fazia chacota constantemente ao suposto ‘cidadão de bem’ que destila homofobia, lesbofobia, discriminação estética, aporofobia e racismo com a naturalidade habitual dos discursos de ódio camuflados pela defesa ‘da moral e dos bons costumes’. Nesse sentido, a personagem mais icônica dele é a Senhora dos Absurdos: branca, blindada pela heteronormatividade, rica, acima de tudo e de todos, até da lei.  Reacionária convicta, a Senhora dos Absurdos tirou os véus da hipocrisia brasileira com provocações chocantes permeadas por uma comicidade digna dos grandes artistas.

Paulo Gustavo faleceu no dia 4 de maio deste ano por complicações de Covid-19. Coincidência ou não, a data marca também o aniversário de 15 anos da estreia do espetáculo “Minha mãe é uma peça” que foi parar nas telonas e virou o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro.  A personagem Dona Hermínia, inspirada na mãe do ator, é a personificação do respeito à diversidade e ao amor incondicional aos filhos, sem restrições de gêneros.  Paulo Gustavo tinha razão “Rir é um ato de resistência”. Infelizmente, o gênio do humor não resistiu ao vírus que já matou mais de 420 mil brasileiros.  O Brasil é o país com mais mortes por Covid-19 em relação aos países mais populosos do mundo e a porcentagem de brasileiros vacinados não chega a 20%.

Paulo Gustavo aguardou a vacina, mas esse direito foi negado a ele e a outros milhares de cidadãos. No especial de Natal da Rede Globo do ano passado, o ator deixou essa reflexão: “Enquanto essa vacina tão esperada não chega para todo mundo, é bom lembrar que contra o preconceito, contra a intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina, é o afeto. É o amor. Então, diga o quanto você ama a quem você ama. Mas não fica só na declaração, não, ame na prática, na ação. Amar é ação. Amar é arte.” Infelizmente esse desgoverno genocida não ama nem o eleitorado que o colocou no poder. Estamos mais tristes sem o Paulo Gustavo e com a sensação de impotência generalizada, mas vamos resistir para honrar a memória dele e agradecer a esse ser de luz que fez o Brasil rir e refletir. Salve Paulo Gustavo e as milhares de pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por falta de vacina e de amor ao povo brasileiro.

Éverlan Stutz é jornalista, ator, professor, compositor e poeta

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