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Mulher: gênero perigo

Semana passada falamos sobre as diferenças entre sexo e gênero. Resumidamente: sexo é o físico, o visível, e geralmente se divide em feminino, masculino, reconhecidos legalmente, e intersexual, menos comum, mas não exatamente raro – e que apresenta dificuldades de registro.

Já o gênero é algo cultural, estabelecido pelas relações sociais e corresponde às expectativas que temos em relação a cada sexo. Uma pessoa nascida com o sexo masculino ou feminino, socialmente, é ensinada a agir de determinada maneira desde a mais tenra idade e qualquer comportamento divergente é visto com estranheza.
Estabelecidas essas diferenças, convido todos ao raciocínio sobre certos acontecimentos que permeiam o sexo e o gênero femininos em nossa sociedade e quais as motivações para isso.
Primeiramente, pergunta importante: ser mulher no Brasil é perigoso?

Considere que em um ranking de 83 países, o Brasil tem o 5º lugar em número de homicídios de mulheres (OMS). Se considerarmos apenas os feminicídios, assassinatos de mulheres em virtude de serem mulheres, em 2013, 13 mulheres morreram por dia sendo que em metade dos casos familiares foram os assassinos (Mapa da Violência de 2015).

É interessante observar a maneira como corpos femininos são vistos como propriedade pelos diversos homens que os cercam, sejam pais, filhos ou maridos. Em algum grau, conseguimos observar mesmo nas relações sociais, como esses tentam manter controle sobre as mulheres de seu núcleo familiar. Quantos não são os filhos que se acham no direito de impedir novos relacionamentos de suas mães? Ex-companheiros que não aceitam o término e perseguem as ex-mulheres? Quantos pais acham certo cercear o comportamento das filhas enquanto deixam excessivamente livres os filhos?
Quando falamos de salário, uma mulher negra recebe 48% do salário de um homem branco e 58% da remuneração de uma mulher branca. Sozinho, esse dado mostra a importância do recorte de raça/cor quando tratamos das opressões sobre mulheres.

E mais – não apenas as mulheres assim nascidas são alvo preferencial de múltiplas opressões e violência. Quando consideramos as partes da comunidade LGBTQIA+ que mais interseccionam com as nascidas mulheres por adotarem estereótipos de gênero como parte de sua identidade, ou seja, gays afeminados, mulheres trans, travestis, etc., observamos a maneira pungente pela qual a violência social as atinge.
São raras as vezes em que vemos homens gays, cis, não afeminados serem alvos de violência direta, do tipo que mata, em virtude de serem gays. Porém nossos jornais estão repletos de ataques frontais, muitas vezes terminados em morte, contra o grupo de pessoas que mais se aproximam de conceitos ligados ao ser feminino. E novamente, assim como o grupo de nascidas mulheres, a maior parte das agressões acontece dentro de casa, surgindo no núcleo da família.

Como o maior dado aterrador, nosso país permanece como o local onde mais se matam pessoas trans e travestis do mundo. Como esquecer as cenas em que Dandara, uma mulher trans, foi espancada até a morte por um grupo de homens?
Assim, não é difícil concluir que ser mulher no Brasil é arriscado. Mas por quê?
A mulher, desde o âmbito religioso que transborda para o social, é vista como “o vaso mais fraco”, aquela “que deve permanecer calada” e que deve estar em “sujeição ao homem”. Ou como disse o pastor Edir Macedo em vídeo que circulou a internet: aquela que não deve estudar mais que o marido para não humilhá-lo e não desaperceber de seu lugar subalterno.

Daí para outras clássicas como “lugar de mulher é na cozinha”, “mulher no volante, perigo constante” e tantos outros desdobramentos machistas e misóginos é um pulo.

É óbvio que leituras mais modernas do pensamento religioso permitem entendimentos não tão literais acachapantes para a mulher. Ainda mais óbvia é a maneira como as próprias mulheres dentro dos movimentos religiosos tradicionais têm buscado ocupar espaços e abrir caminhos apoderando-se de suas potencialidades.

Porém, a análise honesta permite enxergar que o tradicionalismo da interpretação religiosa que não surgiu ontem – mas fez historicamente parte da formação da nossa sociedade – contribuiu para a construção do se ver a mulher como alguém inferior, como objeto de posse, alguém a ser dominado e controlado pelo ser masculino.
Nesse ponto, é importante lembrar que esse texto não é uma crítica a qualquer orientação de fé: antes é uma crítica social ao fato de que permitimos que um pensamento retrógrado enxertado em nossas ações e alinhamentos coletivos desde a idade média permaneça inalterado e contribuindo para toda a violência que transforma o gênero mulher um perigo para aquelas que o são.

Já é o momento de combatermos todos, religiosos ou não, o pensamento que diminui as identidades de gênero femininas porque os números alarmantes de violência em nossa sociedade mostram que esse pensamento oprime e mata

Profa. É[email protected]
ProfaEricaCL

Fontes:
CARASCO, Daniela; CORTÊZ, Natacha. Ser mulher no Brasil machuca. In: Universa. Disponível em: https://www.uol/estilo/especiais/ser-mulher-no-brasil-machuca.htm#ser-mulher-no-brasil-machuca
SOARES. Ingrid. Bispo Edir Macedo fala que mulher não pode ter mais estudo que o marido. In: Correio Braziliense. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/09/24/interna-brasil,789307/bispo-edir-macedo-diz-que-mulher-nao-pode-ter-mais-estudo-que-o-marido.shtml

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