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Sobre as dificuldades de ser professor

Eu escolhi ser professora, sabe? Bem naquela ideia de mudar o mundo ajudando a construir uma mente por vez trabalhando conceitos humanos como justiça, ética, civilidade, cordialidade. O conteúdo é o carro-chefe da aula: mas em alguns momentos ele se torna secundário, como semana passada quando dois alunos de nono ano trocaram socos em sala.

Eu amo o que faço e, modéstia à parte, faço bem, obviamente, dentro das limitações que se me apresentam no dia a dia.

Porém tem uma coisa que sempre digo: mais difícil do que lidar com os alunos mais difíceis – é lidar com determinados pais.

Ao longo desses vinte anos de profissão já me deparei com muitos pais mal-educados, grosseiros, donos da verdade ou que acham que, mesmo sem ter formação alguma na área, entendem de dar aulas mais do que eu, professora. Mais do que nós, professores.

Tenho um amigo militar de alta patente que um dia me disse que gostaria muito de ser diretor em uma escola de parceria cívico-militar. Eu lhe disse que gostaria muito que ele fosse também. Especialmente para observar como ele agiria no primeiro palavrão lançado em sua cara por um aluno, preferencialmente, adolescente: lembrando que não pode mandar prender. Seria cômico de observar.

Porque a docência é assim: exige altas doses de qualificação, mas também de experiência para lidar com o humano – e o humano é diverso demais! E difícil demais também. Não à toa, nós, professores, quando entramos em sala a primeira vez como regentes, já fomos estagiários por, literalmente, centenas de horas aprendendo na prática como agir em situações reais.

Para se ser um bom professor, não é só achar que sabe. Não é só querer. É preciso estudar – e muito – não apenas sua matéria, mas também sociologia da educação, psicologia da educação, didática de ensino e tantos outros conteúdos que existem com o objetivo de ensinar a ensinar e a lidar com as humanidades que se escancaram em sala de aula.

Sabe uma frase que me dá raiva?
“Temos que valorizar os professores e a educação!”

Meio maluco de minha parte detestar essa frase? Não, sabe o porquê? Pelo simples fato de que quem a enuncia raramente sabe ou pratica o que ela significa.

Observe bem o discurso de quem fala isso quando surge o tópico educação. Normalmente são aqueles que se dizem saudosos dos “professores de antigamente” – seja lá o que isso quer dizer – porque os de hoje apenas sabem “doutrinar” (seja lá o que isso quer dizer também).

Usualmente são pessoas que acham que sabem tudo de pedagogia e magistério sem nunca ter aberto um único livro de didática ou comportamento humano. Piaget, Vygotsky, Skinner, Comenius? Sequer sabem quem são.

São, normalmente, os que chamam professores de vagabundos e que falam que já ganhamos o suficiente – mesmo que nós sejamos a profissão de ensino superior mais mal paga em nosso país. E ainda têm a cara de pau de dizer que valorizam a educação.

Mas eu não desisto. E ainda luto. Porque o objetivo do meu trabalho são os alunos e é com eles, com esse material humano tão valioso, que nós, professores, ajudamos a construir um futuro melhor. Até para quem só valoriza a educação da boca pra fora.

Nota: texto desabafo depois de ouvir aos gritos de uma mãe de aluno que nós, professores da escola, eu, inclusa, somos incompetentes e despreparados dentre outros xingamentos. O triste é que em tantos anos, não foi a primeira vez. E a única certeza que tenho é de que não será a última. Lidar com certos pais será sempre mais difícil do que lidar com os alunos. A escola me deu todo o suporte. A Polícia Militar em Congonhas, acionada por telefone, não compareceu. O bom é a rosinha de papel que ilustra esse texto: um presente espontâneo de uma aluninha de sexto ano. Nossa bateria não acaba porque recebemos pequenas cargas de afeto nos momentos mais inesperados.

Profa. Érica
@ProfaEricaCL

 

 

 

 

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